terça-feira, 18 de agosto de 2009
O RACISMO NA NEGRA BAHIA
"Esta carta impressa, ou eletrônica, chega a sua mão para contar algo quea conteceu comigo, minha família e meus amigos; provavelmente eu sou sua vizinha, amiga ou temos conhecidos em comum. Meu nome é Vânia xxxxxxx, sou jornalista de formação, e moro na Rua xxxx, nºxx. Sou casada há quase 2 anos, com Cláudio xxxxxxx. Somos um casal fisicamente diferente, ele é negro, alto, rastafári; eu sou branca, e tenho cabelos encaracolados. Quando nos casamos resolvemos residir onde eu já morava há 4 anos, aqui no rio Vermelho.
No último dia 08 de agosto por volta das 19h30 iniciei, no espaço de convivência do meu prédio, uma festa de comemoração ao meu aniversário, onde eu reuni cerca de 40 convidados; entre eles a família de Cláudio. Ao realizar a festa já havíamos combinado que o som funcionaria até as 22h e depois diminuiríamos até encerrar por volta da meia noite. Tudo corria bem, estávamos muito felizes, NENHUM VIZINHO DEMONSTROU QUALQUER PROBLEMA COM O SOM. Por volta das 21h30 ouvi algumas pessoas na entrada do prédio conversando com Cláudio, eram dois policiais militares, imaginei que eles estavam falando sobre alguma outra coisa, pois A VIATURA ERA DE ITAPOAN. A seguir Claudio abaixou o volume do som e assim ficou.
Por volta das 23h30, quando alguns convidados já se despediam, me surpreendi de ver um homem alto, muito musculoso, usando short de elástico, camiseta e chinelo, apontando o dedo para Cláudio na frente de todos, dizendo que ele estava preso porque não havia diminuído o volume do som. Ao lado deles estavam DOIS POLICIAIS QUE NÃO PORTAVAM IDENTIFICAÇÃO, um deles ARMADO COM UMA METRALHADORA e outro algemando Cláudio; desci as escadas até onde eles estavam e perguntei: "Gente, o que é isso?". Então me dirigi a este homem de short e ele me respondeu que era autoridade. Reagi e gritei: "Saia da minha casa, você não tem o direito de entrar aqui"; ele me respondeu retirando a pistola do short e apontando em direção a minha cabeça. Na hora não pensei em nada, só em ficar entre ele e Cláudio, e empurrar aquele homem mesmo armado, e pedia aos policiais "Por favor me ajudem, quem é esse homem?" Os policiais nada faziam, e o homem sendo empurrado pegou com a outra mão o celular e dizia, "É melhor vocês subirem, que eles não querem deixar eu levar"; como num passe de mágica mais 3 viaturas apareceram e os policiais arrastaram Cláudio algemado para fora de casa, comigo e mais 20 pessoas que gritavam e se agitavam com tantas armas e policiais na nossa rua, que é apenas de residências e não tem saída.
TODOS OS POLICIAIS ESTAVAM SEM A IDENTIFICAÇÃO. Cerca de 10 policiais começaram a coagir as pessoas e muita gente estava chorando no meio da rua. Foi quando uma viatura chamada por uma das minhas convidadas chegou com um Oficial com identificação que se apresentou, e disse que precisávamos ir à delegacia, pois aquilo estava fora de controle, assim finalmente retiraram a algema de Cláudio e fomos até a delegacia do Rio Vermelho. Lá esperamos a delegada, que colheu as versões e perguntou a Cláudio se ele gostaria que continuasse a investigação e ele disse que sim. Nossos depoimentos foram agendados. Também fomos a corregedoria da PM e prestamos queixa.
Escrevo, para perguntar a vocês: O QUE É ISSO? Pois no auge da minha idade e experiência não consigo entender, como um vizinho, que mora a 300metros da minha casa, não vem e conversa comigo sobre qualquer problema, por que um vizinho pegaria uma PISTOLA e colocaria na cintura NO MEIO DA NOITE e entraria na minha casa? Por causa de um som, que ninguém reclamou? Por que os policiais não tinham a identificação? Por que este homem gritava e humilhava Cláudio na frente da família dele e dos amigos? Por que algemar uma pessoa desarmada e que não oferecia nenhum perigo? O que teria acontecido com Cláudio se eu não reagisse? Se meus amigos não fosse em bloco para a delegacia? Se o policial acionado pela nossa casa não tivesse chegado?
Não tenho respostas. E isso me consome. O medo de uma Polícia coorporativa que não protege o cidadão nem da arbitrariedade da própria polícia, que ataca, que humilha. Estou esgotada de pensar e não conseguir as respostas. Porque infelizmente acho que sei as respostas. Ao fim, isso poderia acontecer com qualquer amigo, vizinho, conhecido, nãosou diferente de ninguém.
Meu nome é Vânia xxxxx, meu RG é xxxxxx, moro no AP. xx, fui humilhada e coagida por um homem que dizia ser oficial da PM armado com uma Pistola, de shorts, camiseta e chinelo, que invadiu a minha casa e conseguiu reunir 5 viaturas policiais e cerca de 10 PMs, num sábado a noite, motivado por um som que não incomodou nem aos meus vizinhos de parede. A arma deste homem, além do consentimento dos colegas Policiais, foi sua PISTOLA e a sua "AUTORIDADE". A minha arma e de Cláudio são as palavras, e minhas testemunhas, que agora passam a ser vocês. Temos medo, mas não vamos desistir da nossa dignidade e nem do direito de resistir a brutalidade, a opressão e ao abuso.
A você que leu esta carta peço ajuda. Resista também, e fique consciente doque esta acontecendo. PRECISAMOS NOS INDIGINAR E TAMBÉM USAR NOSSAS ARMAS."
Sabemos que o caso de Vânia, infelizmente, é mais um de vários que acontecem todos os dias na nossa cidade. Mas isso não faz menor a nossa revolta.
Lutamos pelos direitos dos usuários de drogas, uma minoria discriminada pelos familiares, vizinhos, colegas de trabalho, pelo Estado. Entendemos que a criminalização das drogas anda lado-a-lado com a criminalização da pobreza e a discriminação racial e, assim, vamos de encontro a qualquer forma de preconceito.
O caso de Vânia segue em andamento na Corregedoria Geral do Estado e na Corregedoria da Polícia Militar, além da queixa enviada ao Ministério Público.
Conheça o site RACISMO EXISTE.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Massacre de Canabrava, na periferia de Salvador da Bahia
Como muitos de vocês devem saber, nestes últimos dias mais uma operação policial militar do governo do estado da Bahia resultou em massacre na periferia de Salvador. Este último caso, foi no bairro de Canabrava, dia 16 de junho: cinco jovens executados sumariamente pela polícia, sendo que três deles da mesma família. Três filhos assassinados na frente de uma única Mãe: Edmilson (22 anos), Manoel (23 anos) e Rogério (24 anos).
De imediato algumas organizações negras baianas escreveram algumas primeiras reações, no calor da hora, da dor e da revolta (SEGUEM ABAIXO E EM ANEXO 2 TEXTOS, INCLUSIVE COM FOTOS; PODEM E DEVEM SER PUBLICADOS E
DIVULGADOS AMPLAMENTE). Como diz um dos textos, infelizmente com muita serenidade: “estamos convictos que o papel de nossa geração é não morrer calada”. No entanto se quer mais: os movimentos sociais periféricos e a
juventude negra organizada reaje contra o genocídio, e prepara novas mobilizações. Precisam ser apoiados de todas as maneiras possíveis! A começar por ecoar suas denúncias!
Renicia-se agora e ganha força, depois do último massacre, uma ampla campanha pela saída imediata do atual Secretário de Segurança Pública, César Nunes, que prefere ser chamado de “Secretário de Polícia”. Ele o mesmo que, como integrante de um governo “democrático-popular”, no início do ano em entrevista para o jornal A Tarde (09/01/2009) declarou: “Se tem que tombar, que tombe do lado de lá, não vai tombar do nosso lado, não! Que tombe do lado dos bandidos, mesmo! E a polícia não se acovarda, não, a gente está partindo para cima mesmo!”.
Os recentes massacres, como o de Canabrava, foram premeditados, portanto! O Secretário de Polícia, que ainda permanece no cargo, tem que sair imediatamente! Ele e todos os responsáveis diretos e indiretos por esta nova “matança dos suspeitos” na “faixa de gaza baiana” (VEJAM OUTROS NÚMEROS ABAIXO). Uma investigação muito séria deve buscar a Verdade e a Justiça para Todos estes casos. Indenização e Reparação para as famílias de vítimas fatais; e também para as vítimas sobreviventes (de balas acertadas, torturas, prisões e outras humilhações).
Além desta campanha emergencial pela saída imediata do atual Secretário de Polícia e da busca por Justiça Integral, prepara-se para Agosto deste ano de 2009 o “I Encontro Nacional Popular pela Vida e por Uma Outra Segurança Pública” em Salvador-BA. Organizado por vários movimentos e organizações do país. Precisa ser divulgado, discutido e fortalecido!
Em suma: o genocídio negro virou política explícita de estado. Política e prática de extermínio sistemático. Um verdadeiro massacre premeditado e planejado, cotidiano, contra a juventude negra e periférica. E não é no Paraná ou em Santa Catarina não (que já é grave!), mas na própria Bahia negra, em plena negra Salvador. A exemplo do que já vem ocorrendo em outros estados como Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo… Só que na Bahia tal prática está sendo levada adiante de forma acelerada e celerada, aos olhos de todos, exatamente por um governo auto proclamado “democrático-popular”, um governo chamado de “para todos”… Democracia? Popular? Para quem?
Trata-se de uma verdadeira Duracracia ou Democradura. Um estado de exceção permanente. Algo precisa ser feito quando os dados do próprio Governo não deixam dúvidas quanto à escalada dos últimos anos, que conforma um cenário de massacre de alta intensidade, unilateral:
NÚMEROS DE ASSASSINATOS EM SALVADOR-BA
ANO HOMICÍDIOS
2003 900
2004 840
2005 923
2006 1223
2007 1665
2008 2189
Fonte: SSP-BA
E os dados, os números – estes que não traduzem uma Dor sequer -, mesmo eles não param de se multiplicar. Nos primeiros dez dias de 2009 – ano que ainda não entrou totalmente nas estatísticas -, foram mais de 50 assassinatos, ou mais de dez por dia pela própria contagem oficial. O grosso das execuções cometidas por agentes da polícia. Exatamente na ocasião em que, frente ao aumento da violência, o tal Secretário de Polícia a reiterou dando estas declarações acima e outras similares, preparando o terreno para novos assassinatos em série levados adiante pelo poder público.
Agora o massacre de Canabrava… Quais os próximos? Até quando?
Segue abaixo, portanto, dois textos-respostas imediatas à atual situação emergente, contando-a de outra forma que as contagens oficiais. Eis a versão dos historicamente oprimidos, que precisa ser publicados e divulgados em todos meios possíveis!
Leia na íntegra: Blog Passa Palavra