sábado, 30 de maio de 2009

Bahia: Marcha proibida, mas encontro de pé!

Lamentavelmente, ao invés de rever sua decisão, a Juíza Nartir Dantas Weber oficiou novamente todas as autoridades e instituições competentes para que sejam adotadas as medidas necessárias ao cumprimento da decisão que impedir a realização da Marcha da Maconha que havia sido remarcada para o domingo, 31 de maio.

Nessa sexta-feira, 29 de maio, às 16hs, os membros da Ananda deram entrada com um pedido de Habeas Corpus, de caráter liminar solicitando expedição de Salvo Conduto. Esperamos que a decisão seja tomada o mais rápido possível, antes do dia 31, na esperança de que dessa vez a Justiça seja feita. No Documento, os membros da Ananda pedem defesa dos direitos à livre expressão e locomoção dos membros do grupo e de todos os cidadãos que têm interesse em manifestar publicamente opinião sobre o tema. Esse é um direito fundamental que lamentavelmente tem sido sistematicamente ceifado pelas atitudes coercitivas e pouco dialógicas do Ministério Público Estadual da Bahia, tomadas desde o ano passado.

A Ananda orienta que as pessoas interessadas em conversas a respeito das políticas e leis sobre a maconha compareçam no Farol da Barra, no dia 31 às 14hs, mas lembramos que a Marcha está adiada até que seja anunciada oficialmente uma nova data para a realização do evento. Vamos recorrer da decisão e se preciso levar a matéria para o Supremo Tribunal Federal. É inadmissível num Estado Democrático de Direito que cidadãos que se organizem para manifestar sua opinião a respeito das políticas e leis do seu país sejam criminalizados e expostos publicamente de forma deturpada.

Estaremos como sempre estivemos, desde 2007, abertos ao diálogo e atuando apenas dentro da Lei. Coletaremos emails para contatos, distribuiremos material informativo e principalmente tentaremos fazer o que é obrigação do Estado: proporcionar a todos os cidadãos uma oportunidade de falar o que acha a respeito do tema. Estaremos lá para ouvir, mais do que para ser ouvidos, para dar voz aos que têm sido sistematicamente calados pelo Estado.

Lembramos da existência de interpretações ambíguas sobre o que seria formas de apologia ou não e, por mais absurdo que seja, é arriscado portar camisetas, bonés, ou outros materiais que se remetam à cultura do uso da planta. Discordamos dessa interpretação, mas não temos controle sobre isso, de modo que o máximo que podemos fazer é desaconselhar o uso de produtos dessa cultura e nos comprometer em dar conselhos jurídicos e procurar encaminhar os possíveis casos à Defensoria Pública.

Existem outras formas de manifestar seu descontentamento com os atuais abusos cometidos contra a Constituição e a Lei 11.343 sobre drogas, que não violam a Decisão Judicial. Traga sua Constituição; Traga suas camisas verdes; Traga seus cartazes contra a censura e pela Democracia, mas traga principalmente suas idéias e seu coração aberto para um diálogo abrangente, sem hipocrisias ou censuras, pois só assim é possível fazer uma sociedade de fato melhor.

Reafirmamos que nossas ações nunca estimularam nem induziram o consumo de maconha ou outras drogas. Fazer apologia é uma violência aos direitos fundamentais do ser humano e, por isso, uma atitude totalmente contrária à tudo aquilo que os integrantes da Ananda falam ou praticam, ao nossos objetivos e formas de atuação.

Para acompanhar o andamento do Habeas Corpus acesse www.tj.ba.gov.br, na sessão Consulta Processual, escolha 2º grau, utilizando o marcador “por número de processo” (34358-4/2009). O Habeas Corpus está disponível na íntegra para que todos possam utilizar o modelo adaptando-o às suas realidades locais. É importante destacar que um Habeas Corpus é uma ação que não necessita de advogado e pode ser iniciada por qualquer cidadão. Basta levar 3 cópias do documento e dos anexos referidos ao Setor de Protocolo Geral do Tribunal de Justiça do seu Estado, atentando para qual instância está correndo o caso.

Para baixar o Habeas Corpus - CLIQUE AQUI

Vídeos da Marcha 2008

Parte I

Parte II

Notícias

Ministério Público - 29/05/2009

Correio da Bahia - 30/04/2009

Portal G1 - 30/04/2009

Porta Terra - 30/04/2009

Jornal A Tarde - 30/04/2009


Ministério Público - 30/04/09

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Nova Campanha

A Ananda - Ativistas, Redutores de Danos e Pesquisadores Associados, grupo que organiza a Marcha da Maconha na Capital baiana, começou hoje uma campanha de esclarecimento sobre seus objetivos e formas de atuação. A intenção é atingir os variados públicos na sociedade e continuar fomentando o debate. Além do Banner digital abaixo, foram impressos 5.000 panfletos com o mesmo conteúdo que serão distribuídos em toda a cidade.


quinta-feira, 21 de maio de 2009

BAHIA: Ativistas mantém debate público

Os ativistas da cidade de Salvador não param de promover o debate público a respeito das políticas e leis sobre a maconha. A Marcha foi proibida de ocorrer no dia 3, por após a Justiça acatar a liminar do Ministério Publico, mas isso não intimidou a turma que decidiu adiá-la para o dia 31, entrar com recurso e manter as reuniões do grupo para formalizar a criação da Ananda - Ativistas, Redutores de Danos e Pesquisadores Associados, que na prática já existe desde 2007. Tal decisão é apenas uma formalidade e representa o esforço de institucionalização que será realizado daqui pra frente e que dará o devido reconhecimento do trabalho feito pelo grupo desde o I Seminário “Maconha na Roda” (2007). O grupo, formado por artistas, estudantes, pesquisadores, ativistas, redutores de danos e outros cidadãos interessados em discutir e manifestar suas opinões sobre as políticas e leis sobre drogas , tem procurado intensificar ainda mais suas atuações e não se restringir apenas à realização da Marcha da Maconha e seminários acadêmicos. Essa é mais uma demonstração de que a Ananda se mantém sempre aberta ao debate público e de que existem espaços onde a livre expressão da opinião e do pensamento não podem ser alcançadas por nenhum resquício ditatorial.

Nos últimos dias, a Ananda tem procurado estabelecer o diálogo com diversas instituições reconhecidas pelo trabalho que realizam dentro da temática do uso e abuso de drogas. No dia 6 de maio visitamos a Aliança Fátima Cavalcanti de Redução de Danos para conversar com os redutores e apresentar os objetivos e formas de atuação da Ananda. Na segunda-feira, dia 25, às 10hs, a Ananda fará o mesmo no Centro de Atenção Psicossocial - Álcool e Drogas, um serviço de saúde vinculado ao Estado, que atende pessoas com problemas relacionados com o uso de drogas, ou autuadas pela Lei 11.343. Na quarta-feira, dia 27, é a vez do CETAD - Centro de Estudo e Terapia ao Abuso de Drogas receber o grupo para discutir suas propostas e perspectivas com relação ao tema. No mesmo dia, à tarde, na Faculdade de Educação, a Ananda foi convidada a compor uma mesa para debater o tema. Na quinta-feira, haverá o lançamento do livro “Toxicomanias: Aspectos Clínicos e Socioantropológicos”, coletânea que traz diversos artigos, entre eles o texto de Sergio Vidal, um dos sócios-fundadores da Ananda:“A regulamentação do cultivo de maconha para consumo pessoal: um paradigma legal de redução de danos”.


A MARCHA DA MACONHA E A POLITIZAÇÃO DO DEBATE PÚBLICO SOBRE DROGAS

O debate faz parte da programação do evento RODA A REDE - Univesidade: Solo de todo e qualquer saber

ONDE: Auditório I da Faculdade de Educação, Vale do Canela, Salvador-BA.

QUANDO: Dia 27/05, quarta-feira, às 14hs

OQUE: Debate com o público e exibição de vídeos sobre a Marcha da Maconha Salvador 2008

QUANTO? De graça! Leve só suas idéias, opiniõs e questionamentos.


Debatedores

Sergio Vidal (Ativista, Pesquisador e Representante da União Nacional dos Estudantes no Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas - CONAD) Da necessidade de politizar o debate público sobre drogas

Luana Malheiro (Pesquisadora, Coordenadora de Equipe da Aliança de Redução de Danos Fátima Cavalcanti)O lugar dos redutores de danos no debate público sobre drogas;

Eduardo Ribeiro (Comissão de Combate ao Racismo do Diretório Central dos Estudantes)– O lugar do movimento estudantil no debate público sobre drogas;

Edward MacRae (Antropólogo, Prof. da Universidade Federal da Bahia. Conselheiro do CONAD)O lugar da ciência no debate público sobre drogas;

João Martins (Psicólogo, Coordenador do Grupo de Trabalho sobre Substâncias Psicoativas do Conselho Regional de Psicologia) - O lugar do psicólogo no debate público sobre drogas;

Flávio Lopes (Artista Visual e videomaker)Arte, Política e cidadania;

Marcos Hibrido (experimentalista audiovisual)


E A MARCHA CONTINUA MARCHANDO...

As mobilizações na Capital baiana não param! Na segunda-feira daremos entrada com o Habeas Corpus solicitando proteção da Justiça contra a coação ilegal cometida pelo Ministério Público que tenta calar manifestações pacíficas e populares. Vamos todos torcer para que dessa vez seja feita Justiça. Caso contrário, estaremos mais uma vez lá, no Farol da Barra, para informar a população do nosso trabalho e denunciar a censura e perseguição política que atualmente vem ocorrendo com os ativistas da Bahia e de outros estados.

Na quarta-feira o dia será intenso! Diálogo com os usuários dos serviços do CAPS-AD às 10hs, debate na Faculdade de Educação das 14hs às 17hs, e após o debate, como de costume nas nossas quartas-feira, todos se reunirão na sede do DCE, às 19hs que fica na rua Caetano Moura, em frente à Faculdade de Arquitetura.

Na quarta-feira, 27/05 e no sábado 30/05, serão realizadas Oficinas Preparatórias para confecção de faixas, cartazes, máscaras e outros materias para compor a Manifestação do domingo, dia 31/05. Tragam suas cartolinas, papel-metro, tesoura, cola, fita adesiva, lápis-de-cor, hidrocor, tintas, pincéis e tudo que sua imaginaçao sugerir que possa nos ajudar a compor uma festa bonita e colorida.

Da esquerda para direita: Marcos Hibrido, Sergio Vidal, Luana Malheiro e Eduardo Ribeito. Marcha da Maconha em Debate, ARD-FC/UFBA. 06/05/2009

Lançamento: Livro discute regulamentação do cultivo para consumo próprio

O CETAD - Centro de Estudo e Terapia do Abuso de Drogas convida para o lançamento do livro "Toxicomanias: Aspectos Clínicos e Socioantropológicos". O livro é uma coletânea de artigos de diversos autores tratando do tema das drogas sob diferentes perspectivas. Entre os trabalhos, destacamos o artigo de autoria de Sergio Vidal, "A regulamentação do cultivo não-comercial de maconha: Um paradigma legal de redução de danos", que discute os aspectos legais, políticos e sociais das experiências de regulamentação do cultivo para consumo próprio em países como Austrália, Holanda e Espanha, analisando a possibilidade de implantação de um modelo semelhante no Brasil.

O livro é publicado pela Editora da Univesidade Federal da Bahia.

O lançamento será no dia 28, quinta-feira, às 19hs, na sede do CETAD, na Rua Pedro Lessa, n.123 - Canela. A entrada é gratuita.


terça-feira, 12 de maio de 2009

Por uma CPI da proibição da maconha no Brasil?

Por Sergio Vidal,

O melhor do debate nessa tal Democracia Digital é que qualquer cidadão, com um computador e mínimo acesso à internet pode travar conhecimento com pessoas das mais ‘renomadas’, ‘legítimas’ e ‘reconhecidas’ opiniões. Isso é que é Democracia de fato, de Direito e de exercício. Deveria ser cada vez mais estimulado e até mesmo incluído nos currículos escolares, talvez como uma matéria sobre - Como montar seu próprio site, blog, jornal digital e ajudar seu país a ser uma Democracia. No entanto, em se tratando do tema ‘drogas’ e especificamente da planta maconha, dos seus usos e usuários, a questão fica mais complicada e, mesmo que toda opinião emitida seja recebida, deve-se ter cuidado e atenção ao processá-la. Só assim podemos separar opinião de conhecimento.

Em primeiro lugar, queria dizer que acho ineficiente por parte de qualquer meio de comunicação ou comunicador de opinião querer reduzir a discussão sobre a chamada “questão das drogas” na dicotomia proibição total X liberação total. Isso apenas reduz as varias experiências de legislação e políticas sobre drogas que existiram e existem no mundo e não acrescenta qualquer informação válida para solucionar o problema atual. Em se tratando de políticas e leis sobre a maconha, isso é ainda mais ineficiente visto que atualmente são ainda mais variadas as experiências de regulamentação do cultivo e consumo de maconha, haja visto os exemplos da Alemanha, Austrália, Argentina, Canadá, Chile, Bélgica, Espanha, Holanda, Suíça, Suécia, entre outros, além de diversos Estados dos E.U.A. Certamente todos esses países são “sólidas democracias”, mas uma análise detalhada sobre suas políticas e leis sobre maconha revelará que podem existir diversos tipos de uso da proibição. Esse é mais um equívoco dos extremos. A proibição é apenas uma ferramenta, um instrumento que deve sim, fazer parte do aparato de qualquer política ou lei, a exemplo da Lei de Trânsito que prevê punição ao dirigir embriagado, mas nunca deve ser o eixo-central.

Os brasileiros e brasileiras não são burros! Parte significativa deles convive com pessoas que sabidamente são usuárias de maconha e não têm problemas com isso. Não param de estudar, trabalhar, ou de serem amigos, filhos, vizinhos afetuosos e respeitosos. A população sabe que, em se tratando de maconha, o que faz mal mesmo é o fato dela ser vendida por pessoas armadas em suas esquinas ou do seu conhecido poder ser condenado como criminoso por fumar as flores de uma planta.

Existem pessoas que se tornam dependentes ou tem outros problemas por uso de maconha? CLARO! O ser humano é vasto e já foram registrados casos de dependência de sexo, comida, compras e até mesmo de cenoura. No caso da maconha, uma porcentagem mínima dos usuários torna-se habitual e uma menor ainda se torna dependente. É claro que determinados padrões, freqüências e modos de usar a maconha podem causar outros danos à saúde. Mas considerar os usuários criminosos só os afasta do Estado e do Sistema de Saúde.

Se por um lado, a redução da questão à dicotomia já citada atrapalha a comparação das possibilidades que o Brasil tem com experiências internacionais variadas, desconhecer a história da maconha e da sua proibição no Brasil impede qualquer julgamento adequado sobre a questão.

A maconha foi proibida por Decreto, sem discussão, em 1932. Aliás, sem discussão não. Por aconselhamento de alguns cientistas brasileiros, que discutiram entre si, e provavelmente com mais alguns políticos, os mesmos que cometeram o equívoco ao qual o Brasil precisará se retratar em breve por ter forjado dados aumentando os possíveis perigos da maconha nas Reuniões Internacionais sobre drogas de 1924 e 1961. Mas só em 1943 é que o Governo decidiu que, para entender melhor a questão, deveria pesquisar mais afundo os “usuários habituais”, aqueles considerados os “transmissores originais” da nova “doença social”.

Quem eram os objetos de estudo? Populações negras e mestiças rurais, e os pobres e marginalizados da cidade. Era o período onde dentro da Academia imperava o pensamento eugênico, onde todo e qualquer sinal de “inferioridade racial” deveria ser extirpado, em benefício da Ordem e do Progresso, é claro. Não pensem que não tentaram com o álcool, mas descobriram que muitos bebedores eram de classes onde era possível falar mais de perto aos ouvidos dos legisladores. E de onde também os genes precisavam ser preservados. O estudo foi iniciado em cidades às margens do Rio São Francisco, mas também estudou casos de fumadores urbanos e concluiu afirmando que a maconha não causava tantos danos à saúde dos usuários e que o uso não causava problemas sociais, além dos conflitos com a lei.

Usuário fumando maconha em

Ainda assim, a CNFE – Comissão Nacional de Fiscalização de Entorpecentes, criada em 1938, organizou em Salvador (1946) o Convênio Interestadual da Maconha. Olha, é isso mesmo? “da Maconha”, o mesmo tipo de forma de se expressar ao ser uasada pelos militantes da “Marcha da Maconha” é apologia? Nesse Convênio, alguns estudos foram escolhidos para serem apresentados e ajudar a “comprovar científicamente” que a maconha deveria mesmo ter sido proibida e os usuários deveriam continuar sendo presos. A ênfase dos estudos sempre sendo dada à análise dos casos mais graves, como o de um fazendeiro, ex-militar francês que após “maconhismo agudo” correu nu por sua fazenda, expondo as genitálias a todos aos trabalhadores, tendo que retornar vergonhosamente ao seu país ou mesmo às de um senhor baiano, que ao se oferecer como voluntário ficou desconfiado de que os pesquisadores pudessem estar querendo analisá-lo para depois entregar seus dados à polícia por ser maconheiro, numa atitude que, segundo os pesquisadores obviamente só poderia ser algum tipo de paranóia causada pelo "maconhismo".

Foram apresentados ainda alguns dados a respeito do crescimento do número de prisões por delitos ligados a maconha, no que talvez tenha sido o primeiro uso oficial do argumento - “Olha como eles são maus e não conseguem respeitar as Leis que nós decretamos” – para justificar a manutenção e recrudescimento da proibição. Ao final do evento a CNFE organizou e publicou uma coletânea com os artigos mais relevantes no sentido de alertar para os “perigos da planta da loucura” e com suas próprias conclusões a respeito do que deveria ser feito sobre a questão. São diversos itens que se resumem basicamente a: exterminar a planta do Brasil e tirar todos os maconheiros da circulação do convívio com pessoas não contaminadas com o “maconhismo”.

Chama atenção, porém, três recomendações em especial das conclusões da CNFE, inspiradas obviamente pelos perigos da "planta da loucura comprovados científicamente": Cobrar para que nos Departamentos relaciondos à Segurança Pública, em nível federal e estadual, fossem criados órgãos especializados na repressão e combate ao uso"; "Registrar cultos afro-brasileiros onde se faz uso da planta, a partir de fontes médicas e sociológicas , e encaminhamento dos dados às autoridades responsáveis"; e, é claro, o tradicional "Estabelecimento de gratificações aos membros das Comissões de Fiscalização de Entorpecentes do país, “em vista dos extraordinários serviços prestados por eles à sociedade”.

Pronto! Estava declarada Guerra à Maconha e aos Maconheiros!

Guerra sanitária, que deveria envolver toda a população na higienização do país, para assegurar o “País do Futuro”. Na prática o que foi consegui é criar mais cargos dentro do Estado e se isso pode ser feito distribuindo mais poder de controle do Estado sobre a população, melhor ainda, não é?

O objetivo era extinguir do Território Nacional a mesma planta que por séculos havia sido oficialmente importada, exportada, cultivada, preparada, em seus mais variados produtos , e porque não dizer fumada também, colocando na cadeia todas as pessoas flagradas cultivando, guardando, portando ou fumando. Ou seja, uma tarefa obviamente impossível de ser realizada num Estado com muitas outras prioridades. Ora, se o objetivo era proteger a saúde e a ordem pública, porque ao invés de proibir uma conduta que a população fazia tradicionalmente há séculos e que só geraria danos aos próprios indivíduos, não se criou uma regulamentação com base num debate público, como se faz com todas as condutas que não atingem a terceiros?

A maconha permaneceu proibida, junto com a capoeira, as religiões de matriz africana e outros elementos da cultura tradicional brasileira. Todos esses precisaram se adaptar para serem realmente aceitos ou inseridos nos circuitos oficiais. As religiões se institucionalizaram cada vez mais, do mesmo modo a capoeira e ambos expulsaram os maconheiros. Mas a maconha não era e nem nunca foi só “coisa de negro” ou de "pobre", como muitos sempre afirmaram. Os portugueses sempre a conheceram muito bem, tanto que o Império aqui instalado incentivou e subsidiou seu cultivo para extração das fibras até meados do século XIX, tolerando o consumo da planta e muitos deles, como a nossa Carlota, consumindo-a com deleite.

Como muitos estudos atuais afirmam e a própria ONU reconheceu esse ano, é impossível um mundo sem drogas, muito menos sem uma que é consumida há milhares de anos por milhões de pessoas. Sendo assim, os cidadãos e cidadãs brasileiros das raças, etnias, tribos, grupos, sub-grupos, etc continuaram fazendo o que sempre fizeram: plantando e fumando maconha. Só que passaram a plantar menos e comprar mais. Todo um aparato burocrático específico foi gerado para reprimir o plantio e consumo da planta. Dessa forma, aos poucos, quanto maior era a repressão, maior era o risco de plantar para consumo próprio e a opção de comprar se tornava mais exclusiva, pois era preciso manter o anônimato para a polícia, as leis os conhecidos não fumadores. Que, aos poucos, foram se acostumando a taxar e confudir todo maconheiro com bandido ou um potencial louco disposto a tudo por um ramo de maconha. Mas a sociedade não é culpada sozinha, foram incentivados, estimulados e submetidos às opiniões mais ‘renomadas’, ‘legítimas’ e ‘reconhecidas’, e até "cientificamente comprovadas".

É claro que os tais objetivos não foram alcançados e novos estudos encomendados apenas para subsidiar a posição brasileira na Reunião Internacional que se realizaria em 1961. Publicado em 1959, o documento foi organizado pelo Dr. Décio Parreiras a partir de pareceres e opiniões emitidos por técnicos das seguintes instituições: Secretaria da Agricultura de Sergipe; Sociedade Maranhense de Agricultura; Serviço Florestal do Brasil; Ministério da Agricultura; Instituto Vital Brasil; Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro; Faculdade de Medicina do Recife; Instituto de Pesquisas Agronômicas de Pernambuco; Hospital Juliano Moreira; Sociedade de Medicina Legal, Criminologia e Psiquiatria da Bahia; Faculdade de Medicina de São Paulo; Instituto Médico Legal de São Paulo; Serviço Nacional de Fiscalização da Medicina; Sanatório Botafogo do Rio de Janeiro; Serviço de Assistência a Psicopatas de Sergipe; Departamento Nacional de Saúde; Jardim Botânico do Rio de Janeiro e Academia Nacional de Medicina

O relatório serviria para embasar o posicionamento da delegação brasileira na Convenção Única de Entorpecentes (1961), no qual seria decidido se as discussões sobre a maconha, fomentadas após a intervenção suspeita do representante brasileiro em 1924, iriam resultar na proibição internacional da planta. O trabalho fez uma densa descrição das características botânicas, farmacológicas e históricas da planta e do seu uso, e analisou toda a produção científica brasileira sobre o tema. Em suas conclusões, afirma entre outras coisas que a produção cientifica do país não comprovava que a maconha causava dependência ou toxicomania, conforme era afirmado pelo Estado, mas no máximo um hábito e que sua proibição pode causar mais danos que a planta.

As autoridades brasileiras ignoram completamente o relatório, suas conclusões e recomendações e decidiu que a delegação enviada ao Encontro deveria reafirmar tudo que havia sido dito em 1924.

Após 1961, acho que boa parte da história todos nós conhecemos. O Brasil entrou numa Ditadura Militar e só retornou à Constituição Democrática em 1988. Nesse período, foi aprovada uma Lei sobre drogas ainda mais severa, e se intensificaram ainda mais o “combate e repressão ao tráfico”. A repressão ao comércio aumentou, o consumo não-diminuiu, e mesmo com a Lei 11.343 de 2006, o Estado mantém a proibição aos usuários de plantarem pra consumo próprio garantindo que os traficantes tenham o monopólio. Que é exatamente o que o Minc disse.

Acho curioso que em meio a tantas discussões profundas sobre as drogas e comunismo e o liberalismo, ideais ou não, não se tenha percebido que a chave para entender os equívocos cometidos nessa história, é entender que a atitude de idealizar demais situações que não podem ser alcançadas, não ajuda na construção de políticas e leis eficientes e pragmáticas. Numa "proibição ideal" da maconha, a planta deveria ser exterminadas de uma vez por todas e de forma rápida. De preferência, de um dia para o outro todos as Forças Armadas do planeta deveriam se juntar para localizar e queimar cada pé de maconha existente no Globo, e manter a vigilância sobre o terreno para assegurar que novos brotinhos não escapem da Operação.

Mas não só isso. Deveria também ser queimados e destruídos todos os livros, revistas, jornais, ou qualquer outro texto, vídeo, foto ou tipo de documento que fizesse referência à planta. Poriamos também, aproveitar e extender esse extermínio a todos os inúmeros vegetais e animais dos quais é possível extrair drogas psicoativas. Afinal, o ser humano é um incorrigível, não é mesmo, e sempre daria um jeito de consumi-las e criar culturas a respeito desse uso...

Aliás, sempre esqueço... A Guerra é às Drogas e não aos usuários, claro... Na verdade, são as plantas e os animais que, como sempre, iriam perseguir os seres humanos, obrigá-los a extraírem as drogas e consumi-las e corrompê-los tantos ao ponto que dedicariam uma boa parte de aspectos das suas culturas e sociedades aos diversos usos que essas plantas e animais podem ter.

Mas como não vivemos num mundo idealizado. E foi decidido por algumas pessoas lá atrás que a maconha deveriam entrar nesse projeto de proibição ideal mesmo assim, o que acontece então num mercado onde a regra que vale é somente a proibição total idealizada? A maconha é proíbida, com a ressalva de que o uso medicinal e industrial devem ser autorizados pelo Estado, que, salvo casos raríssimos e exclusivíssimos, nunca deus as tais autorizações... Os "cidadãos de bem", que pagavam seus impostos para produzir maconha medicinal e extrair materia-prima industrial deixam o negócio. As pessoas que fumam param de plantar e começam a comprar daqueles que plantam. A repressão aumenta e o aparato criado para isso ganha cada vez mais recursos, as leis se tornam mais severas contra a tal comercialização não-autorizada.

Quanto mais arriscada foi ficando a atividade, diminui o número de pessoas que tinham como o cultivo e comércio a única atividade lucrativa e aumentou o número de criminosos interessados no negócio que já são envolvidos com crimes de punições semelhantes às de comércio não-autorizado, como assalto a mão armada, sequestro, entre outros crimes gravissímos. O resultado dessa "proibição ideal em implantação" todos nós sabemos e se resumem a três coisas: criar um aparteid social entre fumadores e não fumadores, censurar as possibilidades de utilização medicinal e industrial do vegetal e financiar dois lados de uma Guerra contra uma planta que nunca deveria nem ter começado... E agora, pelo exemplo das proíbições das Marchas da Maconha, censurar o debate a maconha também.

Ribeirinho do São Francisco fuma em

Mas e aí? Qual é mesmo a tal "agenda"??

Será que a solução é mesmo manter a proibição até a extinção total da planta e extermínio de todos os usuários? Será que não é possível diminuir a violência do tráfico de maconha ? Tudo isso é possível. Desde que haja disposição para entender de fato a realidade do uso de maconha no Brasil, analisar os dados científicos atuais, respeitá-los e buscar o dialogo com os países citados acima, que têm conseguido, através da regulamentação inteligente, diminuir a violência sem aumentar o consumo. Nesses países não se vende maconha em feira ou em bancas de jornal, como muitos acusam que o Brasil se tornaria. Eles apenas experimentaram olhar mais de perto suas realidades sociais e descobriram que existem mais possibilidades das políticas e leis darem certo se forem ajustadas à realidade, não aos idealismos.

Por isso tudo descrito acima é que me espantei, ao ler hoje no blog do Reinaldo Azevedo em mais uma de suas opiniões, a seguinte afirmação:

“Trata-se mesmo de uma posição de governo. Ou Temporão desmente Minc ou está obrigado a nos dizer os efeitos benéficos da descriminação das drogas. Ou o poeta da Justiça desmente Minc ou nos diz como as drogas livres podem nos conduzir a uma nova ordem legal. Dispenso o tal Juca (quem é esse mesmo???)”

Ora, desde quando o Governo não tem uma posição sobre a maconha? Desde quando nunca houve uma agenda? Pelos interesses do Império a maconha foi espalhada em todo Território Nacional e sua exploração comercial era regulamentada e o uso tolerado; na República um grupo de cientistas e políticos lutou arduamente por sua proibição, chegando a nos envergonhar internacionalmente ao forjar dados sobre os perigos da planta, tudo para justificar a necessidade de maiores investimentos no aparato repressor.

Na Democracia que está sendo criada e fortalecida após a Ditadura Militar, estamos tentando construir políticas e leis sobre drogas mais coerentes com a realidade social brasileira respeitando os conhecimentos científicos atuais sobre a planta, na tentativa de desfazer os erros históricos pelos quais pagamos até hoje.

Logo que terminei de ler seu artigo, pensei que sim, seria muito bom ouvir as opiniões dos senhores José Gomes Temporão, Tarso Genro, Juca Ferreira, Gilberto Gil, Nilmário Miranda e todos aqueles que tiverem coragem de se pronunciar a respeito do tema. Aliás, seria ótimo!

Se eu, apenas um estudante de Ciências Sociais e blogueiro nas horas vagas, consigo pesquisar a história das políticas e leis sobre a maconha no Brasil e pensar em propostas mais interessantes do que essa tal "proibição total ideal", imaginem o que poderiam fazer todos esses ministérios se juntos, mais a Secretaria e ao Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas, que já discutem o tema desde 1998, a comunidade científica e a sociedade civil, caso procurassem emitir um parecer realmente interdisciplinar e democrático a respeito do tema.

Certamente todos os brasileiros, tanto os que fumam maconha e os que não fumam, sairiam ganhando. Mas isso depende apenas de vontade política.

A vontade política, a “agenda”, é que fez com que autoridades se articulassem e, no passado, dessem o tradicional ‘jeitinho brasileiro’ para assegurar que a maconha fosse proibida, com ou sem aprovação da comunidade científica como um todo ou da sociedade civil. As instituições e indivíduos que mobilizam as Marchas da Maconha pelo país afora não estão pedindo a repetição desses métodos. Estão pedindo apenas que seja reaberto o debate, e dessa vez, sejam respeitados os aspectos de seriedade, lisura e democracia, o que não ocorreu quando decidiram banir o tal vegetal maldito...

Na hora me decidi! Comprei a causa do Reinaldo! Vamos cobrar uma posição do Governo, sim! E quero e não quero apenas o posicionamento dos Ministros, dos técnicos ou dos políticos, nesse debate, como ele sugeriu. Devemos incluir toda a sociedade nesse processo. Vamos cobrar de todos que têm alguma mínima relação com o tema. Acho que deveríamos expor logo de uma vez por todas os detalhes de como foram feitas as leis e políticas que criaram e mantiveram a proibição da maconha desde 1932. Quem as discutiu, as sugeriu, as escreveu, as implantou? Se há equívocos históricos mesmo, como foi reconhecido na última reunião do CONAD, quem foram os envolvidos e quais foram suas motivações? E porque esse equívoco ainda não foi corrigido? Se há tantas polêmicas, controvérsias e arestas a serem aparadas nessa história, porque não se cria uma Comissão Multidisciplinar para estudar a questão e submetem o relatório dessa comissão à uma votação aberta ao público no CONAD?

Por uma CPI da proibição da maconha no Brasil, já!

Aliás, CPI não. Me empolguei. Pode ser que acabe dando em pizza, devido à larica de uns e às tradições de outros. Melhor é manter a sugestão da Comissão mesmo.


[OBS]: As fotos que ilustram esse artigo foram retiradas da obra de Bruno César Cavalcanti, Dançadas & Bandeiras (um estudo do maconhismo popular no nordeste do Brasil). Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Pernambuco, 1998.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Pronto! Fumei um Ministro. E traguei...

Por Sergio Vidal,

Apesar dos esforços dos que ainda tentam seduzir a Constituição Brasileira e usá-la a seu modo, os indivíduos e instituições que se manifestam na Marcha da Maconha continuam comemorando o sucesso no país inteiro. Nossa Constituição pode ser uma jovem de pouco mais de 20 anos, mas já sabe muito bem quais caminhos quer seguir rumo a uma Democrácia plena. Apesar da estratégia adotada pelos Ministérios Públicos de Americana, Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Juíz de Fora, João Pessoa, Salvador e São Paulo que conseguiram calar as manifestações em primeira instância, tem prevalescido o Estado Democrático de Direito.

Não conseguiram barrar as manifestações pacíficas, populares e democráticas que ocorreram em Belo Horizonte, Brasília, Florianópolis, Porto Alegre, Recife e Rio de Janeiro, apenas 6 das 263 programadas em todo o mundo. Mas é bastante preocupante que tenham sido maior o número de cidades proibidas, já que o Brasil se declara internacionalmente como um país onde a Constituição, as Leis e os Direitos Humanos são respeitados plenamente.

A Marcha da Maconha é um evento organizado não apenas para discutir sobre seu uso enquanto droga psicoativa, mas também sobre os impactos associados à criminalização do uso e dos usuários, sobre a utilização da planta enquanto medicamento, sobre a industrialização e exploração econômica das partes não-psicoativas da planta. São reinvidicações que vão além do Direito a dispor do próprio corpo, mas têm relação com problemas sociais, políticos e econômicos atuais, com o debate sobre sustentabilidade, sobre diversidade cultural, direito à acesso à saúde e medicamentos, entre outros.

Os cidadãos e instituições envolvidos nesse movimento querem “ajudar a criar contextos sociais, políticos e culturais onde todos os cidadãos brasileiros possam se manifestar de forma livre e democrática a respeito das políticas e leis sobre drogas do país e exigir formas de elaboração e aplicação dessas políticas e leis que sejam mais transparente, justas, eficazes e pragmáticas, respeitando a cidadania, a diversidade e os Direitos Humanos”.

Os noticiários têm dado amplo destaque às mobilizações que estão ocorrendo em todo o país. O tema tem sido pautado em jornais, revistas, rádios, tvs e de forma muito mais acentuada na internet. Na blogosfera, nas comunidades de relacionamento e em diversos outros espaços virtuais o tema tem sido debatido com entusiasmo, mas muitas vezes com os mesmos preconceitos e polêmicas de sempre. Os debates públicos, seja no mundo on ou off line têm se espalhado como fumaça. O tema tem corrido o Brasil, sem que qualquer liminar possa barrar, esse essas discussões, revelando o poderoso papel que a Marcha da Maconha, frequentemente banalizada, rídicularizada e criminalizada, tem tido na construção do debate democratico no país.

Sendo assim, a Marcha tem conseguido cumprir com sucesso parte dos seus objetivos.

Em uma Democracia, os temas devem ser debatidos abertamente, sem preconceitos, às claras e sem qualquer tipo de censura, para que o a relação entre as políticas, as leis e a realidade social possa se ajustar da melhor forma possível. A maconha foi proibida na década de 1930 e se o tema é até hoje motivo de discussões, controvérsias e polêmicas será que é melhor abafar e censurar ou reabrir o debate público e ir à fundo na discussão sobre a questão?

Nesse esforço para tornar o debate público a Marcha conseguiu mais uma vez a participação de Carlos Minc, atualmente ocupando a função de Ministro do Meio Ambiente no Governo Lula. Minc fez da sua participação um discurso bastante lúcido e coerente com a realidade atual brasileira e mundial, tanto que conseguiu chamar atenção de um dos mais amados e odiados blogueiros - Reinaldo Azevedo.

Seu artigo, de título, “Tirem o colete de Minc e lhe metam uma camisa-de-força”, é simpático à opinião de que as políticas e leis proibicionistas são eficientes e devem ser intensificadas ainda mais. Sobre a participação do Minc, ele diz:

“Na prática, é como se o governo se mobilizasse contra uma lei que ele tem de fazer cumprir. E a presença de Minc na tal marcha se torna, então, um emblema do real comprometimento do governo com o combate às drogas.”

Eu digo:

É positivo que fíguras públicas que representem o governo adotem posturas e discursos mais alinhados o do CONAD - Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas, órgão superior do Sistema Nacional de Políticas sobre Drogas. Um bom exemplo dessa postura mais pragmática e menos moralistas, adotada pelo CONAD e por outros políticos, representantes do governo ou não, é o pronunciamento do Ministro General Jorge Armando Felix, por ocasião da Reunião da ONU sobre drogas, em março desse ano. Podemos citar também o fato de que na última Reunião do Conselho foi aprovado um parecer que reconhece o erro cometido pela delegação brasileira em reuniões da ONU no passado, que tornam o país bastante responsável pelo atual status ilegal da planta no mundo, admitindo também que isso atrapalha as pesquisas científicas e o uso medicinal atualmente.

“A Cannabis aparece nos documentos de referência da ONU produzidos nas Convenções de 1961 e 1971 de maneira contraditória, além de cientificamente incorreta. [...] O Brasil teve papel fundamental na gênese dessa situação, na Convenção de 1924. Faz sentido que o Brasil busque correção de equívoco histórico que já perdura por quase um século”(Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas, Março de 2009).

Reinaldo diz:

“O que Minc acha que aconteceria com a mão-de-obra criminosa que hoje se dedica ao narcotráfico? Estou afirmando que o governo não cumpre a sua parte na repressão ao tráfico de drogas e suas conseqüências, como o tráfico de armas.

Eu digo:

Eu não sei o que o Minc acha que aconteceria, mas eu e muitos outros pesquisadores da questão afirmam que a proibição não diminui o uso; O próprio CONAD, através do General Félix, admite
o fracasso e uma série de consequência negativas pela insistência na manutenção da Guerra às Drogas. O que o Minc afirmou é que o Estado e os parlamentares são sim, um dos principais responsavéis pelo apararelhamento do tráfico de drogas no Brasil porque permitem que o monopólio do comércio fique na mão deles. E, com suas palavras, falou o mesmo que o General Félix e o CONAD disseram, ao elencar consequências negativas da atual políticas de drogas mundial e afirmar o caratér irreal da sua principal meta - um mundo sem drogas.

Não é apenas falta de investimentos os motivos do fracasso da Guerra às Drogas. O principal motivo desse fracasso é a falta de adequação à realidade social. Esquecem que a maconha, por exemplo, não é uma planta com vontade própria, que corre atrás de pessoas que a cultive, colha e prepare para fumar. Nem muito menos se vê flores de maconha se enrolando em papel e se atirando na boca das pessoas por aí, em cigarros implorando para serem fumados. São os indivíduos, os cidadãos e cidadãs brasileiros que desde 1932 se recusam a admitir que a maconha seja realmente tão perigosa a ponto de que seu uso seja considerado crime.

Não está com isso se negando o fato de que os usuários têm uma parcela de culpa nisso tudo. Nem que os que compram da mão de traficantes que cometem outros crimes - a maioria, mas nem todos - têm uma parcela ainda maior. Mas, devemos admitir que por causa da Lei, atualmente a escolha é entre comprar, ou plantar para consumo próprio, o que continua sendo crime, e ainda correndo o risco de ser confundido com um cultivo para comércio.

As estatísticas do II Levantamento Domiciliar sobre o uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil, realizado em 2005, revelam que 8,8% dos brasileiros afirmou ter fumado maconha ao menos uma vez na vida, 2,6% ao menos 1 vez no ano da pesquisa e 1,9% pelo menos uma vez no mês em que a entrevista foi realizada. Nesse mesmo ano, segundo Relatório do Departamento Penitenciário Nacional, existiam 296.919 mil detentos em presídios, dividindo as 206.347 vagas existentes. À época estavam em vigor, as Leis 6.368, de 1976 e 10.409, de 2002, essa última não substituindo completamente a anterior por ter tido grande parte de seu conteúdo vetado pelo então Presidente Fernando Henrique Cardoso.

Esse quadro seria ainda mais grave se todas as quase 6 milhões de pessoas estimadas, que em 2005 afirmaram já ter fumado maconha ao menos uma vez na vida, tivessem sido alcançadas pelo sistema judicial. Esses dados ajudam a refletir sobre os objetivos concretamente alcançados e a eficácia real das leis e políticas públicas que priorizam a repressão às condutas de porte e cultivo sem intenção de comercializar. Mesmo que em suas origens tivessem a intenção de proteger a saúde individual e a ordem pública, atualmente essas estratégias têm conseguido apenas agravar os fatores causadores de danos e custos sociais associados ao mercado consumidor dos derivados da planta, obtendo pouco ou nenhum sucesso na diminuição do consumo.

São esses e outros brasileiros que, incoformados com as consequências das atuais políticas e leis sobre a maconha, atualmente lutam pelo direito de cultivar a planta para consumo próprio, de poder se organizar politicamente, de poderem exercer seu direito ao corpo sem afetarem a vida de nenhum outro cidadão. Quem conhece a fundo o debate da atualidade sobre a legalização da maconha sabe que essa discussão vai muito além da simplória dicotomia (liberação total X proibição total) reproduzido por aqueles que querem calar o debate franco e honesto com a sociedade brasileira.

Admitir a possibilidade de discutir publicamente reformas nas leis e políticas sobre a Cannabis sativa deveria há muito tempo ser agenda de governo. As principais democracias mundiais e vários países da América Latina como Argentina, Paraguaia, Chile, Colômbia já discutem a questõa há mais tempo que o Brasil. E o país precisa avançar muito em questões que ainda nem começou a debater.

A Marcha da Maconha tem conseguido mudar ao menos o contexto sobre o debate a respeito da legalização. Apesar do sucesso do grupo ao promover o debate mais uma vez esse ano, precisamos estar atentos aos estados onde a Democracia foi calada, pois revelam a existência de um Brasil tão atrasado que ainda está discutindo se é o não Direito Constitucional manifestar publicamente uma opinião sobre as políticas e leis sobre drogas.

Concluo essa reflexão admitindo que, se não continuarmos alimentando essa discussão e não cobrarmos maior participação de governantes, políticos, artistas, intelectuais e de toda a sociedade brasileira, correremos o risco de ver acontecer o que nos sugere Reinaldo Azevedo…

“Por aqui, não vai acontecer nada. Ou melhor, vai: as drogas continuarão proibidas; a polícia continuará corrompida; o estado continuará omisso; 50 mil pessoas continuarão a ser assassinadas todo ano; os Mincs da vida continuarão a ir a marchas da maconha…

Opa… Mas pera lá! O Minc não foi à Marcha? Isso para mim já é uma forma da referida omissão, manifestar um posicionamento. O Ministro, ao contrário de muitas figuras públicas honrou as posições políticas históricas que sempre teve. Tudo bem que já poderia estar desenvolvendo o debate sobre o cânhamo, sustentabilidade e exploração econômica e industrial dentro do governo. Mas ao menos admitiu que é favorável à legalização e ao debate.

Parece que ainda há esperança no Brasil e que o contexto é cada vez mais favorável ao debate e ao diálogo. Agora, imaginemos se cada brasileiro e brasileira que tem um parente, amigo, vizinho ou conhecido usuário de maconha, de forma socialmente integrada ou não, mas que sabe que o uso faz menos mal do que considerar a pessoa um criminoso fosse às ruas Marchar? Manifestar sua opinião sobre a criminalização da planta… Exigir maior participação na elaboração das políticas e leis… Exigir maior transparência nos processos decisórios… etc…

Seria ótimo ter mais manifestações públicas sobre o tema. Ver o Ministro da Cultura, Juca Ferreira, o ex-Ministro Gil e outras personalidades locais que sempre apoiaram a legalização na Marcha de Salvador, dia 31. Seria muito bom ver os Ministros Temporão e Tarso Genro, citados por Minc, e outros políticos, parlamentares, personalidades e cidadãos nas outras Marchas que ocorrerão no Brasil nesse mesmo dia. Ou manifestando publicamente sua opinião a respeito, para minimamente sair da acusação de omissão, levantada por Reinaldo.

Mas isso só depende de cada um deles e de nós todos, quando passarmos a assumir o compromisso real que cada um tem consigo mesmo e com a sociedade na qual vive. Não basta dizer que a culpa é dos usuários, dos traficantes ou do Estado, cruzar os braços e dizer que não tem nada haver com isso. A omissão não atinge só a governantes, políticos… Atinge todos nós.

As leis e políticas sobre drogas afetam a vida de todos e devem ser do interesse de todos os cidadãos e cidadãs brasileiros. Assim como também deve ser do interesse de todos que seja assegurado o direito à livre manifestação de opiniões sobre o assunto.

Parabéns ao Minc, pela coragem, e a todos os organizadores e manifestantes das Marchas da Maconha no Brasil, pelo belíssimo show de democracia e civilidade.

Ah, e ao contrário do Reinaldo, não acho que ele deva trocar os coletes, nem as idéias que tem a respeito do tema. A não ser pela Faixa Presidencial e por um debate ainda mais amplo sobre a questão.

Pronto! Fumei um Ministro. E traguei..

Marcha da Maconha realizada na maior “limpeza”

Por Marco Bahé

Fui, ontem, ver de perto a realização da Marcha da Maconha no Recife - que tanta polêmica vem gerando neste blog. Vou logo avisando que não sou o que se pode chamar de maconheiro. Ainda no ensino médio provei da “erva mardita”, mas vi que não fazia minha cabeça. E adotei em definitivo uma droga muito mais pesada: a cerveja.

Leia na íntegra: Acerto de Contas

sábado, 9 de maio de 2009

Wianey Carlet: Maconha

Liberada, a Marcha da Maconha vai acontecer. Sob severas e convenientes restrições que podem ser resumidas em uma só: será proibida a apologia ao uso da droga. Os consumidores da erva querem a liberação e não sei como farão para defender seu ponto de vista sem incorrer em transgressão. Mas este é problema de quem defende a causa. O meu objetivo é provocar a discussão sobre o assunto, enlaçando o consumo da cannabis sativa ao futebol.

Leia na íntegra: Zero Hora

Maconha vira salvação da lavoura...

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

O governador Arnold Schwarzenegger, do partido republicano, disse ontem que chegou a hora de o seu estado, a Califórnia, discutir a legalização da maconha para uso recreativo.

Fim recreativo, afirmou Schwazenegger. Isto ao site da CBS. E lúdico-recreativo porque, desde 1996, uma lei da Califórnia autoriza o consumo médico-terapêutico, sob controle do estado. O próprio estado fornece um crachá de identificação, para evitar incômodos policias ao usuário: confira imagem acima.

Leia na íntegra: Blog Sem Fronteiras

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Marcha da Maconha? Pode! Fumar maconha durante a Marcha? Não pode!

Do blog, Por uma Second Life menos ordinária,

O título acima refere-se à interpretação da lei brasileira. Qualquer manifestação popular, seja por qual motivo for, que se faça por meio de marcha, caminhada, passeata ou protesto, é assegurada como liberdade de expressão. Pela constituição, as pessoas têm o direito de manifestar publicamente opiniões - contrárias ou favoráveis. Pela lei, fumar maconha no Brasil é crime passível de prisão. Ponto.

Leia na íntegra: Por uma Second Life menos ordinária

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Lobão Debate na MTV Políticas de Drogas no Brasil

Por Marisa Felicissimo,

A partir da questão “a política de drogas no Brasil é eficiente?” Lobão inicia dizendo que este é mais um debate da série sobre a intervenção do estado sobre o indivíduo. “Se isto é certo ou errado, nós vamos tentar descobrir isso agora”.
Leia na íntegra: Marisa Felicissimo

terça-feira, 5 de maio de 2009

Marcha da Maconha em Debate

ONDE: Bicentenária Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia - Praça XV de novembro, s/nº - Largo do Terreiro de Jesus - Pelourinho
QUANDO: Quarta-feira, 6 de maio, às 9hs
OQUE: Debate sobre a Marcha da Maconha

Programação:
Exibição de vídeos da Marcha 2008
Sergio Vidal - Pesquisador, Redutor de Danos, Mobilizador da ABORDA na Bahia e Representante da União Nacional dos Estudantes no Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas - CONAD;
Luana Malheiro - Supervisora de campo da Aliança de Redução de Danos Fátima Cavalcanti, serviço da Faculdade de Medicina da UFBA, Conselheira suplente do Conselho Estadual da Juventude, Membro do GIESP E NEIP;
Eduardo Ribeiro - Presidente do Diretório Central dos Estudantes da UFBA;
Marcos Monteiro - Videomaker e Dj (Diretor do Vídeo da Marcha 2008);

REALIZAÇÃO:
Aliança Fátima Cavalcanti de Redução de Danos - ARD/FC;
Coletivo Marcha da Maconha Salvador.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O lugar da esquerda é na Marcha da Maconha

Por Ronaldo Pinto Junior

Entre os dias 02 a 09 de maio 13 capitais brasileiras estarão organizando a marcha da maconha. A marcha da maconha é um coletivo que tem como objetivo aglutinar e organizar fóruns e espaços de debates que além de fomentar a organização conduzam o debate para formulação de políticas públicas sobre a legalização da maconha e seus usos.

Leia na íntegra: Movimento Mudança