quarta-feira, 30 de abril de 2008

Marcha da Maconha: para organização, proibição revela "pouco conhecimento" sobre o evento

A organização da "Marcha da Maconha" em Salvador anunciou, nesta quarta-feira, 30, a suspensão temporária do evento na capital baiana. A manifestação estava marcada para ocorrer neste domingo, 4, mesma data em que acontecerão outras 234 marchas semelhantes em outras cidades ao redor do mundo. Uma decisão liminar da juíza Rosemunda Souza Barreto, da 2ª Vara de Tóxicos e Entorpecentes de Salvador, no entanto, acatou um pedido do Ministério Público (MP) estadual e proibiu na última terça-feira, 29, a realização do evento em Salvador.
Em entrevista ao A Tarde On Line, o antropólogo e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Edward MacRae, membro da organização do evento na capital baiana, informou que a suspensão temporária do evento foi decidida porque "os organizadores da marcha não pretendem cometer crime de desobediência judicial". Ele explica, no entanto, que tentarão reverter a decisão judicial nos próximos dias.
Leia na íntegra: Jornal A Tarde

terça-feira, 29 de abril de 2008

Prisão para quem for à Marcha da Maconha

Se depender da Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes (DTE) e do Ministério Público Estadual (MPE) a “Marcha da Maconha” está queimada antes de nascer. A DTE, através do seu delegado titular Carlos Habib, afirmou nesta terça-feira, 29, em coletiva na sede do MPE, que pessoas participantes do evento, programado para domingo no Campo Grande, em Salvador, poderão ser presas por desobediência judicial.
“Carros de som, megafones e até as pessoas podem ser presas por desobediência à ordem judicial. Na sexta-feira, ouviremos o responsável pelo evento aqui em Salvador, que já foi localizado, e ele deve responder inquérito”, explicou a autoridade, sem revelar nomes. Habib explicou ainda que a medida é respaldada pela decisão em caráter liminar da juíza Rosemunda Souza Barreto, da 2ª Vara de Tóxicos, que acatou a ação cautelar proposta pelo MPE para suspender o ato.
Leia na íntegra: Jornal A Tarde

Justiça acata pedido do MP

Acatando solicitação do Ministério Público estadual, formulada pelo coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas e de Investigações Criminais (Gaeco), promotor de Justiça Paulo Gomes Júnior, a juíza Rosemunda Souza Barreto, da 2ª Vara de Tóxicos da Comarca de Salvador, deferiu medida liminar na manhã de hoje, dia 29, determinando a suspensão da 'marcha da maconha', programada para acontecer em 4 de maio próximo, às 14 horas, na Praça do Campo Grande. No despacho, a juíza recomenda que seja dado conhecimento aos comandos das Polícias Civil e Militar, ao secretário de Segurança Pública, e à Prefeitura Municipal do Salvador, por meio do prefeito, da Secretaria Municipal de Serviços Públicos (Sesp) e Superintendência de Engenharia de Tráfego (SET), a fim de que sejam adotadas “as medidas necessárias ao cumprimento da decisão”. Rosemunda Barreto salienta que a Constituição Federal assegura o direito de reunião e livre manifestação do pensamento, “desde que para fins lícitos”, acrescentando que, no caso da marcha, “há indícios de prática delitiva de tráfico de drogas, sob a forma de instigação e indução ao uso de drogas e, conseqüentemente, de fins ilícitos, podendo-se configurar o tipo penal de 'apologia do crime', prevista no artigo 287 do Código Penal”.

Leia na íntegra: Ministério Público - BA

segunda-feira, 28 de abril de 2008

MP ingressa com ação para barrar Marcha da Maconha

Com o objetivo de defender a ordem jurídica e os interesses sociais, protegendo a saúde pública e evitando graves transtornos aos princípios éticos e morais da sociedade baiana, o Ministério Público estadual ajuizou hoje, dia 28, na 2ª Vara de Tóxico e Entorpecentes, em uma Ação Cautelar Inominada com Pedido de Liminar, requerendo a suspensão da 'marcha da maconha', programada para acontecer em 4 de maio próximo, às 14 horas, na Praça do Campo Grande. O coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas e de Investigações Criminais do MP (Gaeco), promotor de Justiça Paulo Gomes Júnior, esclarece que tomou conhecimento da existência do site http://www.marchadamaconha.org - através do qual estão sendo veiculadas notícias tentando convencer e incrementar a legalidade da droga, bem como informar sobre a realização da marcha em várias outras localidades do país, no mesmo dia e horário programados para Salvador -, instaurando logo em seguida procedimento investigatório criminal.
Leia na íntegra: Ministério Público - BA

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Jornal A Tarde, 22/04, pág.10, sessão Agenda

Por dentro do 420 (Cultura Cannabis)









O último sábado no Brasil, dia 20 de abril, fez parte de um feriado prolongado. Enquanto muitos por aí viajavam e tentavam aproveitar um raro momento de descanso, por aqui o centro de Vancouver era tomado por uma fumaça. Mesmo com os fortes ventos que atingem a cidade vez ou outra, ela teimava em ocupar os espaços entre os espelhados arranha-céus.

A data na América do Norte é mais conhecida como 4/20. No Brasil, obviamente, é o contrário. E, entre a Comunidade Cannabis, o número tem um significado especial: é uma forma de fazer referência ao consumo da maconha.


"Oficialmente", trata-se do Dia da Maconha e o momento de celebração ao ar livre do hábito de dar umas baforadas por aí. Mais do que isso, a data em si é também o "horário mundial" para se acender um baseado, exatamente às 4:20.


Não que a província de British Columbia e a cidade de Vancouver, mais especificamente, precisem de um dia especial para que os adeptos possam fumar à vontade pelas ruas. A região possui um "código de conduta" que vigora entre a polícia local e os usuários.


Fuma-se sem problema por aqui. Nas ruas, nos parques, em shows, em ginásios, dentro dos carros... e a polícia não se incomoda. Desde que você não seja pego em flagrante vendendo, comprando ou cultivando, não há problema. Por outro lado, abra uma cerveja na rua e você, provavelmente, terá um final de noite antecipado. E na cadeia!


British Columbia é conhecida entre os canadenses como uma das províncias mais liberais do país, onde o cultivo ao estilo de vida livre e associado ao "Carpe Diem" mais se encaixam. Maconha, por aqui, não se trata de tabu.


É, legalmente, desde 2001 uma alternativa medicinal e vendida pelo governo canadense, que a cultiva. Não é preciso explicar que não se configura o tráfico. No entanto, não confundamos com leniência. Há mais de vinte anos, autoridades norte-americanas e canadenses trabalham juntas para coibir o tráfico na fronteira . Mas isso é um outro assunto.


A origem do 420 tem diversas teorias. Entre as mais populares, a de que um grupo de amigos do Colégio San Rafael, na Califórnia, que se reunia quase todos os dias, em 1971, exatamente às 4h20 para celebrar o estilo de vida escolhido. Outros dizem que o número faz referência ao código usado pela polícia dos EUA ao identificar um traficante/usuário/comprador de maconha.


Teorias históricas à parte, a cidade de Vancouver celebrou o 420 no último sábado. Mais de seis mil pessoas se encontraram ao redor da VAG (Vancouver ArtGallery) para fumar à vontade. Observados por poucos policiais, os profundos tragos criaram a densa nuvem de fumaça no centro da cidade canadense, que teve até rua interditada para o "evento".


Obviamente nem todos aprovam a posição da polícia e do governo, que não reprime o usuário final da droga. De acordo com a Conselheira Kim Capri, da Assembléia da cidade de Vancouver, "quando atividades ilegais acontecem em espaços públicos, muitas pessoas se sentem desconfortáveis e inseguras", afirmou na última terça-feira.


Por outro lado, existem Conselheiros que apoiam a decisão de não intervir na "celebração". Heather Deal, oposicionista política à Kim, defende a polícia local ao dizer que "tecnicamente (o que aconteceu) é ilegal, mas eles não estavam machucando ou ferindo ninguém. E se a polícia não estava preocupada, eu confio no julgamento deles".


Para se ter a dimensão exata da brincadeira, barracas no gramado em frente à VAG vendiam produtos relacionaos à droga, como bolo, sementes e outro presentinhos que lembravam a data. O ápice da manifestação aconteceu exatamente às 4:20, quando baseados foram distribuídos e placas pedindo a legalização foram levantadas. Tudo ao som de Bob Marley...


Se turistas e estrangeiros olhavam com apreensão a presença da polícia, os Vancouverites não se preocupavam. Antes mesmo do início da fumaceira coletiva, o assessor do Departamento da Polícia de Vancouver, Tim Fanning, deixou bem claro a conduta adotada.


- O que nós vamos fazer? Prender 6 mil usuários de maconha? Nós temos outros crimes para combater, procuramos por aqueles que estão mais acima no esquema, importam, cultivam ou traficam a droga - afirmou o policial.


Entre os cidadãos, o apoio maciço às autoridades. E não poderia ser diferente. Em conversa breve com Nick, que preferiu não dar seu nome completo, a posição policial faz sentido.


- Se você bebe muito e sai por aí dirigindo, causa tragérias irrecuperáveis. Bate na família, fica arredio, arranja brigas. Se fumar maconha, nada disso acontece. Proibir bebida é compreensível, mas a maconha, não! E somos apenas usuários, nada além disso, não há o que reprimir - conclui.


Aos conservadores, pinta-se um quadro de anistia. Aos que presenciaram o ato, fica, ao menos, uma lição: seis mil baseados causam menos estragos, ou quase nenhum, eu diria, do que seis mil garrafas de cerveja. No Brasil voltaram atrás, mexeram na MP e permitiram a venda de bebidas alcoólicas em rodavias federais, né? Ah tá...
*Portal Terra
Rafael Prada é jornalista formado pela Universidade Metodista de SP, já acompanhou a Seleção Brasileira de perto e cobriu tragédias e festas que marcaram São Paulo. Atualmente mora em Vancouver, onde estuda (mais!) e tenta se proteger do frio e da neve.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

BA: 2ª edição do Seminário “Maconha na Roda”

Além da Caminhada pelo respeito à Cidadania, Diversidade e Direitos Humanos na elaboração de Políticas Públicas e Leis sobre Drogas, a edição Salvador da Marcha da Maconha contará também com a 2ª edição do Seminário “Maconha na Roda”: Políticas Públicas em diálogo com a Sociedade Civil. Serão 6 dias de evento com debates, palestras, exibição de vídeos sobre diversos aspectos da planta e seus usos com especialistas, pesquisadores, redutores de danos, ativistas e membros da sociedade civil.


Conheça a programação e se inscreva gratuitamente:
www.maconhanaroda.blogspot.com

Marcha da Maconha Brasil: Ativismo dentro de uma “Democracia Relativa”

Por Sergio Vidal, Central de Informações ANANDA (CIA)

Apesar de parecer que o Brasil é uma Democracia consolidada, principalmente para os que não vivem nele, é sempre importante lembrar que o país ainda sofre enormes desigualdades sociais e econômicas, e o respeito aos Direitos Humanos não é aplicado de forma igualitária. Todos sabemos que as conseqüências geradas pelas políticas de “Guerra às Drogas” agrava ainda mais esses problemas, principalmente no Brasil onde o trabalho no cultivo ou venda de maconha acaba se tornando a única saída para muitos jovens pobres.

Era de se esperar que já que o atual Presidente Lula, quando candidato em 1998 assinou junto com outras autoridades uma carta à ONU pedindo o fim da “Guerra às Drogas” e que o Ministro da Cultura, Gilberto Gil já ter declarado publicamente ser favorável à legalização da maconha, o debate sobre reformas nas políticas e leis sobre drogas tivesse avançado, ou ao menos fosse mais tolerado. No entanto não é o que vem ocorrendo.

Os indivíduos e instituições que fazem parte do Coletivo Marcha da Maconha Brasil, que este ano apoiou eventos em 13 cidades no país sofreu algumas retaliações e represálias durante a divulgação dos seus trabalhos. No dia 3 de abril, alguns estudantes do estado de Minas Gerais impedidos pela direção da Universidade Federal de exibir o documentário Grass para fomentar a discussão do tema dentro do Movimento Estudantil entrou em confronto com a polícia, quase culminando com a prisão de um estudante por “desacato à autoridade”, devido ao fato de negar-se a entregar o DVD. Na Paraíba, durante todo o mês de abril houve uma intensa campanha de repressão por parte da Igreja Católica, e a Polícia Federal, Polícia Militar e o Ministério Público alegaram que iriam filmar todos na passeata e prender os organizadores caso houvesse alguma criança ou menor de 18 anos, ou alguém fumando maconha.

O caso mais grave ocorreu no Rio, no dia 20 de abril quando 5 membros do Coletivo foram autuados em flagrante pelo crime de “apologia ao crime”, 4 camisetas e 1.700 panfletos foram apreendidos. Se por um lado todos esses casos revelam ainda haver muito autoritarismo e abuso de poder por parte de algumas autoridades brasileiras, o fato de termos sido procurados por diversas autoridades que passaram a nos dar apoio revela que podemos construir o espaço para o diálogo com o Estado, ainda que com um certo receio dos casos de abuso na aplicação das leis.

Esse parece ser um momento chave para o ativismo pró-regulamentação da maconha no Brasil, pois o Coletivo conseguiu realizar o evento pela segunda vez, e esse ano com mais participantes em um maior número de cidades e até mesmo realizando um Seminário com pesquisadores e especialistas sobre o tema. Apesar da repressão e das perseguições que atingem não apenas o Coletivo Marcha da Maconha, mas também outros movimentos sociais excluídos do diálogo com o Estado, a legitimação do debate sobre a legalização é um cenário possível, basta que continuemos lutando, insistindo e apoiando o amadurecimento da Democracia Brasileira.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

A Marcha da Maconha

Por Breno Melaragno Costa

Não sou a favor da legalização das drogas. Penso que o álcool já causa transtornos individuais e coletivos suficientes, e por motivo histórico que acabou econômico, restou droga liberada. Refiro-me agora aos classificados como entorpecentes.

Digo isto de antemão para que o leitor não se arme de preconceito com o que certamente deu causa ao assunto ora tratado. A prisão daqueles que organizam a tal “marcha da maconha”.
Os jovens panfletavam para chamar as pessoas à reflexão e participação de um movimento legítimo, pela descriminalização do uso da canabis sativa. Ninguém convidava a consumir o entorpecente, mas sim a aderir a corrente que defende a exclusão da canabis do rol de entorpecentes.

Tal não foi o entendimento dos Policiais Militares que os prenderam e do Delegado de Polícia que os autuaram em flagrante delito.

Bom, o mesmo terão que fazer com pessoas de um movimento a favor do aborto. Porque não fizeram, não fazem e não farão? Puro preconceito.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

SP: Conselho de Entidades de Base da União Estadual de Estudantes debate Políticas sobre Drogas

Nos próximos dias 18, 19, 20 e 21 de abril estará ocorrendo o Conselho de Entidades de Base da União Estadual dos Estudantes de São Paulo. Nesse evento serão debatidos diversos temas importantes para a juventude brasileira, principalmente ligados às lutas do Movimento Estudantil. O pesquisador e redutor de danos Sergio Vidal estará presente no dia 19, às 15hs, compondo uma mesa sobre Redução de Danos. A apresentação discutirá um pouco o conceito de Redução de Danos e o papel do Movimento Estudantil na elaboração de políticas e leis sober drogas no Brasil. O evento será realizado na UNIPALMARES:
Unipalmares
Rua Padre Luís Alves de Siqueira, 640 - Barra Funda
Mais informações: www.ueesp.org/cee

sábado, 12 de abril de 2008

Salvador: Site do GIESP publica aúdio do I Seminário "Maconha na Roda"

O site do GIESP - Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Substâncias Psicoativas publicou uma versão on-line do Seminário "Maconha na Roda": Políticas Públicas em diálogo com a Sociedade Civil. Este Seminário contou com a presença de diversos especialistas sobre o tema e foi parte dos eventos organizados pelo Coletivo Marcha da Maconha Brasil em 2007.
Para ouvir os aúdios das palestras em MP3 - CLIQUE AQUI

Falta alguma coisa na história da maconha no Brasil?


Origens controversas de uma planta trans-cultural

Durante muito tempo a historiografia brasileira sobre os usos da planta Cannabis sativa era unânime em afirmar que suas origens eram exclusivamente africanas, e que seu cultivo teria sido introduzido com a chegada dos primeiros escravos. De fato, muitos dos africanos trazidos como escravos para o país mantiveram seus costumes de utilização da planta, considerando-a um vegetal especial, uma planta-professora, dotada de características mágicas e propriedades curativas. Antes do descobrimento do Brasil, diversas etnias e nações do continente africano conheciam a planta e utilizavam-na para uma ampla variedade de fins. Os principais usos eram relacionados com o preparo de medicamentos, ou ligados ao seu consumo fumado em rituais religioso ou reuniões sociais mais informais. No entanto, a tese de que os negros seriam os únicos responsáveis pela introdução do cultivo e consumo de maconha no Brasil não se sustenta a uma observação mais cuidadosa.

Os senhores-de-engenho, proprietários dos escravos e toda estrutura produtiva das fazendas de cana-de-açúcar, principal agro-negócio da economia brasileira do séc. XVI até meados do séc. XVIII, toleravam a utilização do fumo de cannabis e tabaco. O sociólogo Gilberto Freyre chega a afirmar que “não parece simples coincidência que se surpreendam tantas manchas escuras de tabaco ou de maconha entre o verde-claro dos canaviais”, sugerindo que teria havido “evidente tolerância – quando não mais do que tolerância – para a cultura dessas plantas voluptuosas” (Freyre; 1985). As denominações usadas no Brasil para a planta liamba¸ diamba, riamba, cangonha, pango, fumo-de-angola, também confirmariam as origens da maconha brasileira, mas por outro lado, revelariam a heterogeneidade que representam essas raízes culturais no continente africano.

Certamente os colonizadores, agentes do Império Lusitano, já estavam habituados desde o período denominado como Expansão Marítima ao relacionamento com diferentes culturas cultivadoras da planta. Além de conhecerem os usos lúdicos e medicinais de sua resina, a partir do seu contato com populações de países asiáticos e africanos onde mantinham outras colônias, também reconheciam as utilidades de sua fibra. Denominada na Europa mais comumente de linho-cânhamo, ou somente cânhamo, as fibras da planta eram amplamente utilizadas na indústria têxtil, e reconhecidamente um dos produtos centrais à economia da época. (Herer, 1985; Booth, 2003).

De fato, os navios que compunham a esquadra que aportaram no continente em 1500 comandada por Pedro Alvarez Cabral, tinham fibras de cânhamo na composição de suas velas, cordas e até mesmo na vestimenta da tripulação. Em 1783, o Império Lusitano instalou no Brasil a Real Feitoria do Linho-cânhamo (RFLC), uma importante iniciativa oficial de cultivo da planta para fins comerciais. Nessa época, a demanda por produtos à base das fibras da Cannabis era alta em todos os países da Europa e muitos produtores não conseguiam atender essas demandas, enquanto muitos procuravam entrar no negócio na tentativa de aproveitar a oportunidade de lucro. Ao mesmo tempo, o Império Lusitano buscava alternativas de produção que pudessem fortalecer a economia, uma vez que as produções para exportação, como o açúcar, estavam cada vez mais enfraquecidas. Para isso a Coroa acentuou sua atenção para o estudo, importação e cultivo de espécies vegetais de importância econômica cultivadas nas colônias que ainda lhes restava na África e Ásia, para tentar tornar o Brasil sua nova fonte de especiarias e outros produtos de origem natural.

As primeiras fazendas e benfeitorias foram instaladas no sul do país, em regiões que atualmente ficam entre os municípios de Canguçu e Pelotas, no estado do Rio Grande do Sul. A partir daí, o Estado passou a importar sementes da Índia e Europa, traduzir manuais de cultivo e produção e investir na adaptação climática de variedades da planta. Os Hortos Botânicos Imperiais passaram a trabalhar selecionando as gerações das plantas mais adaptadas e enviando relatórios entusiasmados sobre o desempenho das plantas em solo nacional. Dessa forma, podemos afirmar que “o assunto era importante e, ao nível estratégico, interessava ao príncipe D. João, a dois vice-reis, a dois governadores do Continente. O linho-cânhamo era para a navegação o que hoje é o petróleo. E Portugal procurava ficar independente da Inglaterra, daí a importância que teve o empreendimento de 1783-89”. (Bento, 1992; 13). Laura Carvalho, historiadora que atualmente coordena um levantamento bibliográfico, documental e audiovisual sobre a história da planta no país, completa afirmando que “ainda que os documentos encontrados até o momento precisem ser melhor analisados antes de qualquer conclusão, eles nos fazem pensar que Portugal tinha todo interesse que o empreendimento obtivesse sucesso, e investia alto para que isso ocorresse. Existem muitos indícios de que a Coroa financiou a introdução e adaptação climática da espécie em Hortos em estados como o Pará, Amazônia, Maranhão, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Bahia. No entanto, tudo leva a crer que muitos outros empreendimentos do tipo surgiram a exemplo da experiência da Real Feitoria, até mesmo de iniciativa privada, e esses teriam persistido até a proibição do cultivo da planta, na década de 1930, com maior ou menor êxito econômico”.

Apesar dos dados históricos apontarem que as contribuições dos descendentes de africanos para o patrimônio genético da cannabis brasileira sejam bem antigas, tudo indica que as contribuições dos colonizadores também o sejam. A introdução e manutenção das variedades de Cannabis de origem africana no país seguiram a mesma lógica de outros aspectos da vida das populações de escravos e ex-escravos, estando restritas às determinações das elites econômicas, sociais e políticas. O historiador Henrique Carneiro sugere que nada nos autoriza a afirmar que as primeiras plantas cultivadas sejam de sementes africanas, afirmando que talvez tenha sido algum marinheiro português o primeiro a carregar para o país as sementes. Até mesmo o uso de cachimbos d’água, principal técnica utilizada para fumar a erva até a primeira metade do séc. XX, teria sido introduzida pelos portugueses que teriam trazido o hábito das culturas canábicas com as quais tiveram contato na Índia, principalmente em Goa. (Booth, op. cit.: 157).

"Maricas" vendidas ainda hoje nas feiras de artesenato do norte e nordeste do país [1]

Foram, portanto, os colonizadores quem tiveram condições materiais tanto para decidir de que maneira era possível às populações marginalizadas consumirem a planta, como para promover empreendimentos de cultivo e comércio, quando lhes foi de interesse. Além disso, foram os empreendimentos oficialmente apoiados pela Coroa, e iniciativas privadas de elites rurais, os grandes responsáveis pela introdução e adaptação em larga escala de diferentes variedades da planta a partir do séc. XVIII. Disso tudo, podemos apenas concluir que as características atuais das variedades de cannabis existentes no Brasil são fruto de um processo bastante complexo e multifacetado, envolvendo diversos atores sociais em períodos históricos diferentes.

A criminalização da Cannabis no Brasil

O primeiro documento proibindo o uso da maconha foi uma ‘postura’ da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, de 1830, penalizando a venda e o uso do ‘pito do pango’, sem, no entanto obter quaisquer repercussões significativas. É somente no início do século XX, com a intensificação do processo de urbanização, que o hábito ganha adeptos entre os habitantes das zonas urbanas, passando a figurar entre as preocupações das autoridades governamentais.

Apesar de sua ampla utilização como matéria-prima para fibra têxtil, principalmente pelas populações ligadas às elites econômicas e sociais, a imagem da planta ficou marcada permanente por sua associação com o uso por parte das populações pobres, negras e indígenas. Até o final do séc. XIX e das primeiras décadas do séc. XX, a planta era amplamente difundida nas regiões norte e nordeste do país, sendo consumida por ex-escravos, mestiços, grupos indígenas, principalmente nas zonas rurais. Com o avanço do processo de urbanização, as populações imigrantes passam a ser vistas como fonte de problema sociais e sanitários. Os hábitos de consumo e higiene desses grupos passaram a ser objeto de estudo e controle das instituições e autoridades médicas e sanitárias. São criadas delegacias e outras instituições específicas para tratar do assunto, a exemplo da Inspetoria de Entorpecentes, Tóxicos e Mistificações, também responsável pela repressão às práticas religiosas de origem africana, afro-brasileira e afro-indígenas, em geral consideradas ‘feitiçaria’, ‘curandeirismo’ ou ‘magia-negra’.



Da Macumba à Maconha


Apesar de receber diversas denominações, atualmente a erva é designada apenas como maconha, nome que tem origem na palavra ma’kaña da etnia africana denominada quibundos. Essa associação ganhou força a partir da década de 1940, quando a imprensa marrom passou a propagandear a associação entre a maconha, a criminalidade e a feitiçaria. Nessa época também se consolidou a expressão ‘maconheiro’ para designar à pessoa que fumava a planta. Eram comuns notícias relatando as violências das “gangues de maconheiros, que ajudavam a reafirmar o conteúdo negativo da palavra, misto dos estigmas de criminoso, doente mental e macumbeiro (outra palavra do quibundo, utilizada para designar pejorativamente as pessoas que exerciam práticas religiosas de origens africanas, indígenas ou sincréticas, que também mesclavam elementos do catolicismo popular ibérico).


A partir de 1910, cientistas como Rodrigues Dória e Francisco Iglesias passam a divulgar e descrever em artigos e congressos científicos internacionais suas teorias relacionando o comportamento “natural” das populações de origem africana com os efeitos farmacológicos da Cannabis. Segundo essa teoria, a maconha causaria em seus consumidores “degeneração mental e moral”, “analgesia/entorpecimento”, “vício/compulsão”, “loucura, psicose e crime”. Esses efeitos seriam os responsáveis pelo comportamento atribuído por esses cientistas como natural à população negra, que seria caracterizado pela “ignorância”, “resistência física”, “intemperança”, “fetichismo” e “criminalidade”. Essas idéias floresceram e se difundiram facilmente no ambiente acadêmico da época, quando muitos dos conceitos ligados às teses eugênicas vigoravam o auge de sua influência nos meios científicos do país. A tese foi aceita com bastante sucesso entre o meio acadêmico, na sociedade em geral, em nível nacional e internacional. As posições do Dr. Dória e seus seguidores sobre o que ele chamou de ‘a vingança dos vencidos’ podem ser resumidas no trecho que encerra sua comunicação no Segundo Congresso Científico Pan-americano, realizado em Washington, 1915:

“A raça preta, selvagem e ignorante, resistente, mas intemperante, se em determinadas circunstâncias prestou grandes serviços aos brancos, seus irmãos mais adiantados em civilização, dando-lhes, pelo seu trabalho corporal, fortuna e comodidades, estragando o robusto organismo no vício de fumar a erva maravilhosa, que, nos estases fantásticos, lhe faria rever talvez as areais ardentes e os desertos sem fim de sua adorada e saudosa pátria, inoculou também o mal nos que o afastaram da terra querida, lhe roubaram a liberdade preciosa, e lhe sugaram a seiva reconstrutiva”. (Dória, 1915;37)

"Assembléia" - Nome dado às reuniões sociais onde se fumava e cantava loas
cantigas de reverência à diamba (nome da planta nesses contextos) -
1940.

Esse processo da construção de um discurso científico impregnado de categorias racistas é análogo ao ocorrido nos EUA com as populações de origem mexicana. A partir daí, as práticas e representações sobre o uso, plantio e preparo de Cannabis, tradicionalmente transmitidas e socialmente validadas através das diversas gerações de brasileiros que a consumiram, passam então a ser oficialmente desqualificadas (Macrae e Simões, 2000). É como doença transmissível de população para população que o hábito de consumir Cannabis é introduzido nos meios científicos e por ele pensado. Interpretadas como sintomas de uma “psicose hetero-tóxica”, e compreendidas a partir das categorias “maconhismo” ou “canabismo”, essas práticas passam a ser objeto de estudos e pesquisas em grande parte fomentadas ou promovidas pelas autoridades oficialmente legitimadas sobre o assunto. (Adiala, 1986; 2006).


Em 1921, o Brasil se alinha às recomendações dos EUA, seu principal aliado comercial e político, aderindo aos acordos firmados na reunião da Liga das Nações Unidas. As autoridades legislativas brasileiras promulgam a Lei Federal nº 4.294, incorporando à norma interna o documento do acordo internacional, reafirmando suas intenções proibicionistas. Com essa lei o país estabelece os primeiros passos para a burocratização da repressão e do controle das substâncias proscritas. Essa norma previa encarceramento para os traficantes, mas interpretava os consumidores como doentes, vítimas das substâncias, prevendo para eles o tratamento compulsório. Apesar dos esforços das autoridades ligadas ao aparelho de repressão estatal, o ordenamento jurídico brasileiro em relação ao tema só voltaria a sofrer alterações significativas na década de 1930, período de promulgação de uma nova constituição.


Em 1924, mais de 100 países enviaram delegações para reafirmar as discussões sobre coca e ópio, que já vinham ocorrendo desde as reuniões de 1909, 1911, 1912 e 1921. Em todas elas, nenhuma menção a cannabis havia sido realizada até, que nessa reunião, El Guindy, o representante do Egito, trouxesse à tona suas inquietações sobre o que ele considerava os graves problemas e perigos do haxixe, exigindo a inclusão da planta na lista de substâncias proscritas. Após muita insistência de El Guindy, o Conselho decide formar uma subcomissão para discutir o tema, composta por especialistas da Grã-Bretanha, Índia, França, Grécia, Egito e Brasil, este último representado pelo Dr. Pedro Pernambuco, discípulo do Dr. Dória. Durante os trabalhos, os representantes da Grécia, Brasil e Egito pressionam fortemente para que o relatório exigisse controle equivalente ao do ópio e destacasse os perigos da planta. O Sr. Pernambuco aproveita para dar sua contribuição à história da proibição internacional da cannabis, apresentando suas teses brasileiras a respeito da associação entre a cannabis e a papoula, uma vez que, no Brasil, segundo ele, haveriam tantos problemas relacionados com a maconha entre os negros que a ‘planta da loucura’ seria mais perigosa e causaria mais danos do que o ópio no oriente. (Mills, 2003; 152-187)


Com essa vitória em nível internacional das autoridades proibicionistas brasileiras, o próximo passo seria a inclusão da planta como substância proscrita no país e a promoção de uma campanha para erradicação do seu cultivo e consumo. Em 1932, a planta é incluída na lista de substâncias proscritas sob a denominação de Cannabis indica. Em 1934, é promulgada a nova constituição em meio a muitas agitações políticas e sociais e, um ano depois, o Poder Executivo decreta a Lei de Segurança Nacional, através da qual passa a vigorar um Estado de Exceção, com restrições às liberdades individuais e direitos constitucionais. O país vive um clima de estado de sítio e em 1937, o então presidente Getúlio Vargas fecha o Congresso, prende parlamentares e decreta o estabelecimento de uma ditadura que vigoraria até 1945, e que ficou conhecida como Estado Novo.

Diambista fuma em "maricas" feita de cabaça - 1940

Em 1938, um ano após a criação do Estado Novo, o Poder Executivo publica o Decreto-lei n. 891, cujas principais contribuições ao aparelho repressor proibicionista eram: 1) regulamentação e definição das atribuições da Comissão Nacional de Fiscalização de Entorpecentes (CNFE), criada em 1936; 2) estabelecimento de penalidades de encarceramento para condenados por uso ou porte para consumo pessoal. A lei que concebeu a CNFE passou a dar margem para que outras instituições fossem formadas especificamente para tratar das questões relacionadas ao consumo e comércio das substâncias, essas passaram a ser chamadas genericamente de “entorpecentes”. A partir daí, houve um crescimento do número de delegacias, departamentos de polícias, clínicas e outros órgãos e instituições que passaram a ter como principal atividade designar aos usuários das substâncias psicoativas tornadas ilícitas um tratamento burocrático-legal.

A CNFE surge para centralizar todos os esforços antidrogas em uma só agência Federal. A Cannabis e seus usuários entram nesse processo como o elo simbólico de caráter nacional que faltava para a unificação das iniciativas de combate às drogas. Como planta psicoativa de uso bastante difundido em todo território nacional, a maconha se transforma no estandarte unificador dessas iniciativas, e como mito explorável para promover e justificar as “medidas enérgicas de profilaxia” recomendadas pelos ‘especialistas’.


Em 1943, uma expedição científica é destaca para visitar comunidades onde se fazia uso nos estados da Bahia, Sergipe e Alagoas, principalmente nos povoados às margens do Rio São Francisco. Ao término da expedição um relatório é encaminhado à CNFE alertando que a planta era cultivada e consumida principalmente entre as “classes baixas”, mas que na Bahia, o uso também ocorria nas “classes altas”. A grande maioria dos cultivadores visitados desconhecia a proibição da planta, que era vendida livremente por mateiros e herboristas nas feiras livres sob a denominação de ‘fumo bravo’. O relatório então recomendava que a CNFE promovesse uma Intensa campanha mostrando os ‘malefícios do cultivo e do uso da maconha’ e que buscasse maior articulação entre os diversos Estados da Nação.


A CNFE então promoveu o Convênio Interestadual da Maconha, em 1946, reunindo representantes das Comissões de Fiscalização de Entorpecentes dos estados da Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco.


Após dezenas de palestras e outras exposições de especialistas agrônomos, médicos e autoridades policiais, os trabalhos são encerrados com a publicação do Relatório Final, redigido pelo Dr. Pernambuco, e o lançamento da Campanha Nacional de Repressão ao Uso e Comércio da Maconha. O Relatório estabelece as seguintes normas a serem seguidas em todo o Território Nacional:

1. Planejamento de ações e padronização de estudos visando à promoção de uma intensa campanha educativa contra o uso e plantio.
2. Organização de cursos práticos para as autoridades policiais e sanitárias visando ampliar os seus conhecimentos sobre a botânica e os ‘males’ da planta, facilitar o trabalho de identificação dos criminosos e viciados;
3. Estimular a classe médica a promover estudos sobre os ‘males’ da maconha e sobre as características dos usuários;
4. Promover a inclusão do tema nos congressos e reuniões de psiquiatria;
5. Incentivar a cooperação e articulação entre as Comissões de Fiscalização dos estados onde o uso e plantio seriam disseminados – Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Piauí, Maranhão, Pará e Amazonas – promovendo o estabelecimento de convênios e a obrigatoriedade do intercâmbio de todo tipo de informações (relatórios, dados estatísticos, fichas criminais, etc.);
6. Destruição de todas as plantações de maconha;
7. Criação nos Departamento de Segurança Pública, em nível federal e estadual, de um órgãos especializados na repressão e combate ao uso;
8. Registro dos cultos afro-brasileiros onde se faz uso da planta, a partir de fontes médicas e sociológicas, e encaminhamento dos dados às autoridades responsáveis;
9. Estabelecimento de gratificações aos membros das Comissões de Fiscalização de Entorpecentes do país, “em vista dos extraordinários serviços prestados por eles à sociedade”. (CNFE, 1951; 239).

Ribeirinho do São Francisco fuma em "maricas" de barro - 1940

Em 1951, o Ministério da Educação e Saúde publica a primeira edição dos trabalhos apresentados no Convênio Interestadual da Maconha, incluindo o Relatório Final. Em 1958 é publicada uma segunda edição, ilustrada e revisada. Entre o Decreto-Lei de 1938 e o final da década de 1960, não é difícil imaginar os níveis de repressão atingidos pelo aparato estatal montado para essa função específica. Entre os trabalhos do Dr. Dória (1915), e a 2ª edição dos trabalhos do Convênio mais de quatro décadas foram dedicadas à erradicação das populações que faziam uso da planta, principalmente pobres, negros e nordestinos.



Em 1959 a Comissão Nacional de Fiscalização de Entorpecentes resolve preparar uma revisão bibliográfica de todas as pesquisas produzidas até o momento sobre a maconha no Brasil e encomenda um relatório ao Dr. Décio Parreiras. Este recebe pareceres e opiniões de técnicos das seguintes instituições: Secretaria da Agricultura de Sergipe; Sociedade Maranhense de Agricultura; Serviço Florestal do Brasil; Ministério da Agricultura; Instituto Vital Brasil; Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro; Faculdade de Medicina do Recife; Instituto de Pesquisas Agronômicas de Pernambuco; Hospital Juliano Moreira; Sociedade de Medicina Legal, Criminologia e Psiquiatria da Bahia; Faculdade de Medicina de São Paulo; Instituto Médico Legal de São Paulo; Serviço Nacional de Fiscalização da Medicina; Sanatório Botafogo do Rio de Janeiro; Serviço de Assistência a Psicopatas de Sergipe; Departamento Nacional de Saúde; Jardim Botânico do Rio de Janeiro e Academia Nacional de Medicina (Parreiras, 1959).


O relatório serviria para amparar a delegação brasileira na Convenção Única de Entorpecentes, que seria realizada em 1961 em Nova York, no qual seria decidido se as discussões sobre a maconha realizadas a partir da solicitação brasileira em 1924 iriam resultar na proibição da internacional da planta. O trabalho faz uma densa descrição das características botânicas, farmacológicas e históricas da planta, do seu uso e da produção cientifica sobre esses temas no Brasil. O relatório conclui afirmando que a produção cientifica do país não autorizava ninguém a falar em dependência ou toxicomania de maconha, termo utilizado na época, mas no máximo em hábito. Em outras palavras, os limites entre o que é um hábito condenado moralmente e uma dependência é muito tênue e por vezes é definido a partir de critérios não-científicos e sim políticos ou ideológicos. As autoridades brasileiras ignoram completamente o relatório e a delegação brasileira em 1961 reafirma os perigos alarmistas sobre a planta e exige restrições equivalentes às do ópio.


Em 1964 ignora mais uma vez esse relatório e publica o Decreto-lei nº 54.216 incorporando ao ordenamento interno do país os acordos firmados na Convenção Única de 1961. Em 1968, um novo Decreto passa a estabelecer equivalência penal entre condenados por tráfico e por uso. Mas a grande inovação seria trazida com a lei de 1976, conhecida como Lei de Tóxico, que passou reunir todos os ordenamentos jurídicos relacionados com o tema em apenas um documento. Os poderes de repressão do Estado em relação ao uso da maconha então ganham novas dimensões e, na prática, passam a marginalizar ainda mais os consumidores, submetendo-os a violência e arbitrariedades maiores que antes. Um exemplo de uma das principais aberrações dessa legislação é a tipificação do crime de ‘apologia ao uso de drogas’, que também tornaria possível a condenação de qualquer um que falasse dos aspectos positivos de uma substância ou da sua liberação, mesmo que não fosse traficante nem consumidor.
No entanto, a partir da segunda metade da década de 1960 a maconha deixa de ser apenas coisa de negros, pobres e marginalizados (se é que algum dia esteve restrito apenas a eles), para ser cada vez mais consumida nas classes médias e altas. Os ‘inimigos’ da saúde pública, da moral e dos bons costumes deixavam então de ser habitantes das favelas e dos estados do Norte e Nordeste, para serem os jovens adeptos da contracultura, do movimento hippie, das experimentações psicodélicas e de outras manifestações culturais alternativas.

A Maconha no Brasil da “Abertura”

Desde a década de 1980 que o uso da maconha passou a ser mais tolerado na sociedade brasileira e a partir de 1986, estudantes, artistas e intelectuais passaram a promover debates, passeatas e outras manifestações pela legalização da planta. Na década de 1990, as discussões sobre legalização se restringem a manifestações artísticas isoladas como as do grupo musical Planet Hemp, que ficaram uma semana presos por cantarem músicas pró-legalização. No início da década de 2000, os espaços de discussão que surgiram na Internet possibilitaram que os usuários tivessem acesso às informações e discussões sobre o tema que estava ocorrendo em outras partes do mundo. Em 2003, foram realizadas passeatas pela legalização no Rio de Janeiro e em São Paulo, organizadas e divulgadas totalmente pela Internet. Em 2004, o fenômeno se repete com maior participação, mas também com repressão policial. Em 2005, as discussões ganham o apoio de políticos, acadêmicos, artistas e outras personalidades, engrossando o debate em torno das urgentes necessidades por reformas na lei. Surgem movimentos como o Plante Legal, o Movimento Nacional pela Legalização das Drogas, a Rede Verde, o Movimento Nacional pela Legalização do Cânhamo, o Princípio Ativo, a Ananda, o Growroom, o Coletivo Marcha da Maconha Brasil e outros.


Também em 2004, no mesmo ano em que a Passeata Verde foi violentamente reprimida na Av. Paulista, ocorreu o Seminário Cannabis sativa L. e Substâncias Canabinóides em Medicina, organizado pela Secretaria Nacional Antidrogas – SENAD e pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas – CEBRID, onde estavam presentes os maiores especialistas e autoridades políticas e científicas do país e alguns convidados de países como Holanda, E.U.A e Canadá. Apesar de não ter como foco os aspectos históricos e políticos da criminalização da maconha no Brasil ou no mundo, já que a maioria das exposições se referia a pesquisas e experiências atuais sobre as potencialidades da Cannabis e dos seus princípios ativos enquanto medicamentos e as experiências existentes atualmente de prescrição e distribuição dos derivados da planta para uso médico em diferentes países, foram debatidos três assuntos muito importantes para entender o cenário atual a respeito das políticas e da produção científica sobre a maconha:


1) Foram discutidos alguns aspectos dos erros históricos cometidos pela delegação brasileira na reunião da Liga das Nações em 1924, quando o representante brasileiro Dr. Pedro Pernambuco Filho, contrariando a maioria das pesquisas científicas sobre o tema, inclusive as suas próprias, defendeu que a maconha no Brasil causava mais danos que o ópio no oriente e que por isso deveria ter o mesmo rigor no controle. Foi exposto que esses erros histórico da delegação brasileira possivelmente foi a causa da interpretação incorreta dos reais perigos da maconha tanto por parte das autoridades brasileiras que intensificaram a repressão amparadas nos acordos internacionais, quanto por parte das autoridades dos outros países que entenderam que uma informação desse tipo vindo de um país onde muitas pessoas usavam maconha não poderia ter sido manipulada e acreditaram que a maconha era muito perigosa e aprovaram a realização de discussões sobre sua equiparação ao ópio;


2) Foi denunciado que essa “demonização” histórica da planta Cannabis sativa atrapalhou e ainda atrapalha muito a realização de pesquisas científicas, a utilização médica e terapêutica e os usos industriais dos derivados da planta, e que possivelmente ajudou no processo de inclusão da planta Cannabis sativa na categoria de drogas com alto risco e sem nenhum potencial médico, Lista IV da Convenção de 1961;


3) Foram convidados para participar do Seminário e para expor pareceres a respeito da questão: “Deve ou não a Cannabis sativa permanecer na Lista IV da Convenção da ONU” as seguintes instituições: Associação Brasileira de Antropologia (ABA), Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), do Ministério da Saúde, Secretaria Nacional Antidrogas, da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (ABEAD), da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).


Diante da gravidade dos fatos expostos, excluindo a ABA que não respondeu ao convite nem foi ao Seminário, a ABEAD que votou contra e a OAB-SP que se absteve, todas as instituições redigiram pareceres favoráveis ao encaminhamento de uma petição à ONU pela retirada da Cannabis da Lista IV e denúncia dos erros cometidos pelo Brasil em 1924 e em 1961. A SENAD expôs quais os caminhos precisariam ser percorridos dentro da burocracia legal do país e da ONU para a realização da tarefa e um parecer foi encomendado à Câmara de Assessoramento Técnico Científico - CATC, que o redigiu e encaminhou ao Conselho Nacional Antidrogas – CONAD. O processo estava em andamento até o início da reestruturação do CONAD, realizada através do Decreto 5.912 que entrou em vigor em outubro de 2006 junto com a Lei 11.343.


Em outubro do ano passado entrou em vigor a nova lei, ainda antidrogas, nº 11.343, estabelecendo uma série de avanços para a situação dos consumidores de drogas. A principal melhoria é a retirada da pena de encarceramento para quem portar ou cultivar uma pequena quantidade destinada ao consumo próprio. O encarceramento é substituído por uma medida alternativa que pode ser: 1) advertência sobre os efeitos das drogas; 2) prestação de serviços à comunidade; medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo. No entanto, as ambigüidades da nova lei vão revelam que suas intenções não são de admitir aos cidadãos o direito de consumir drogas e sim de dar uma aparência um pouco mais moderna ao ordenamento jurídico. Um exemplo é a pena prevista de 1 ano de encarceramento para o crime de “Oferecer droga, eventualmente e sem objetivo de lucro, a pessoa de seu relacionamento, para juntos a consumirem”. As contradições internas da legislação são tantas que além de manterem todo e qualquer uso na criminalidade, ainda cria distorções como penas de restrição da liberdade para o consumo em contextos sociais e penas não-restritivas para o consumo solitário, indo de encontro às atuais recomendações de especialistas em Redução de Danos que afirmam que o uso social é uma das formas de criar regras e normas de conduta que protejam a saúde do indivíduo (Macrae, 2006).


Com esse artigo procuramos esclarecer alguns pontos a respeito da história do uso e da proibição da cannabis no Brasil. Contudo, sabemos que muitos aspectos ficaram de fora e principalmente que os detalhes sobre cada um dos períodos históricos citados nesse texto ainda precisa ser mais pesquisado, descritos e analisados. No entanto, acreditamos ser essa uma contribuição importante para enriquecer a compreensão de alguns pontos a respeito dessa História e do papel do Brasil no processo de criminalização internacional da maconha. É importante lembrar que, ainda que a perseguição grupos minoritários e a utilização política da proibição como mecanismo de controles sobre esses grupos guardem analogias com o ocorrido em outros países, a exemplo dos EUA, cada processo guarda suas especificidades e precisa ser compreendido dentro dos seus próprios contextos. Como vimos, o Brasil empreendeu sua própria campanha anti-maconha e até mesmo contou com versões tupiniquins do czar antidrogas estadunidenses Harry Anslinger (Dr. Pedro Pernambuco, Dr. Décio Parreiras e outros).


Mas e aí, falta ou não falta alguma coisa nessa história?


Ora, apesar de ter sido reconhecido publicamente que houve um erro histórico nas motivações que levaram à construção do primeiro Decreto-lei, de 1932, proibindo a planta e por conseqüência todos os outros, não houve qualquer alteração no cenário das discussões sobre o tema. Apesar de haver pareceres de algumas das mais sérias instituições do país recomendando a retirada da Cannabis sativa da Lista IV da Convenção da ONU e sugerindo que o governo brasileiro denuncie os erros cometidos por suas delegações no passado e adote uma postura coerente com esses novos (velhos) fatos, nada mudou.


Será que ainda faltam pesquisas sobre a planta e seu uso? Será que faltam mais discussões e pareceres técnicos de instituições sérias e respeitadas sobre o tema? Será que faltam mais informações históricas sobre a proibição e os abusos cometidos em seu nome? Ou o que falta mesmo é atitude política para além de divulgar melhor esses fatos, buscar corrigir e admitir os erros das pessoas que usaram seus cargos públicos de forma indevida décadas atrás?


Seja lá o que for, a única certeza é a de que falta alguma coisa importante nessa história e que muitas pessoas têm sofrido as conseqüências disso. Se você é um cidadão ou cidadã brasileiro(a), que faça ou não uso de maconha, mas que acredita que nesta história está faltando alguma coisa que compromete a honra da Democracia Brasileira, junte-se à nossa luta e de outras instituições e venha exigir que as leis e políticas possam ser construídas e aplicadas de forma mais transparente, justa, eficaz e pragmática, respeitando a cidadania e os Direitos Humanos.

REFERÊNCIAS:

ADIALA, Júlio César. O Problema da Maconha no Brasil: ensaio sobre racismo e drogas. Rio de Janeiro: Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, 1986. (Estudos, n.52).

______________. A Criminalização dos Entorpecentes. Edição Independente, 2006.

BENTO, Cel. Claudio Moreira. Real Feitoria do Linho Cânhamo do Rincão do Canguçu (1783-89 Localização). Canguçu – RS: Academia Canguçuense de História, 1992.

BOOTH, Martin. Cannabis: a history. New York - US: St. Martin´s Press, 2003.

CARLINI, E. Et. Al. Cannabis sativa L. e Substâncias Canabinóides em Medicina. Brasília – DF: Secretaria Nacional Antidrogas – SENAD, 2004. Disponível no endereço: http://www.encod.org/info/IMG/pdf/CannabisFinal.pdf

CAVALVANTI, B. C. Dançadas e Bandeiras: um estudo do maconhismo popular no nordeste do Brasil. Recife. Dissertação Mestrado defendida no Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco, 1998.

DÓRIA, Rodrigues. Os Fumadores de Maconha: Efeitos e Males do Vício. In: HENMAN, Anthony, PESSOA JR., Osvaldo. (Orgs.). Diamba sarabamba: coletânea de textos brasileiros sobre a maconha. São Paulo: Ground, 1986. p. 19-38

FREYRE, Gilberto. Nordeste. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1985. 5ª ed.

HERER, Jack. The Emperor Wears no Clothes. Califórnia – US: Hemp Publishing, 1993.

MACRAE, Edward & SIMÕES, Júlio Assis. Rodas de Fumo – O Uso da Maconha Entre Camadas Médias Urbanas. Coleção Drogas: Clínica e Cultura. EDUFBA, 2000. Disponível no endereço: http://www.giesp.ffch.ufba.br/Textos%20Edward%20Digitalizados/24.pdf

MACRAE, Edward. Redução de Danos para o Uso da Cannabis. In; SILVEIRA, D. & MOREIRA, F. Panorama Atual de Drogas e Dependências. São Paulo – SP: Editora Atheneu, 2006. pp. 361-370.

MILLS, James H. Cannabis Britannica – Empire, Trade, and Prohibition. UK: Oxford Universy Press, 2003.

Ministério da Educação e Saúde. A Maconha – Coletânea de Trabalhos Brasileiros. Dep. de Imprensa Nacional, 1951.

PARREIRAS, D. Cânabis Brasileira. Rio de Janeiro – RJ: Comissão Nacional de Fiscalização de Entorpecentes – CNFE, 1959.

[1] A maioria das imagens que ilustram esse artigo pertencem ao acervo pessoal do antrópologo Bruno Cavalcanti, e foram publicadas em sua dissertação de mestrado “Dançadas & Bandeiras: um estudo do maconhismo popular do nordeste do Brasil”, defendida no Programa de Pós-Graudação em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco, em 1998 (páginas 89, 90 e 183). A única foto que não foi retirada deste trabalho é a do ‘ribeirinho do São Francisco’, que foi publicada na obra do folclorista Alceu Mayanard de Araújo “Potengi – Escorço do Folclore de uma Comunidade”, 1962, página 56, e pertence ao acervo pessoal do autor. Agradeço especialmente ao amigo Paulo Sergio Santos da Silva, por ter gentilmente digitalizado essas imagens.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

UFMG: Fatos e Notícias

Conheça o Caso:
Os estudantes que ocuparam o saguão da reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG ) decidiram na tarde desta quinta-feira (10) sair do prédio. ...
UAI - 10 de abril
Prestes à completar quatro dias de ocupação, os estudantes decidiram, em assembléia realizada nesta quinta-feira, deixar o prédio da Reitoria da ...
Globo - 9 de abril
Os estudantes que ocupam o saguão da reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG ) decidiram na tarde desta quarta-feira (9) manter seu protesto...
UAI - 9 de abril
Estudantes decidiram, em assembléia realizada na tarde desta quarta-feira, manter a ocupação no prédio da Reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais ...
Observatório da Cannabis - 8 de abril
A Ananda – Associação Interdisciplinar de Estudos sobre Plantas Cannabaceae vem através desta nota-pública prestar solidariedade e apoio às pessoas vitimadas pelos fatos ocorridos na tentativa de exibição do documentário “Grass”, no último dia 03/04, na UFMG...
O Tempo - 8 de abril
BELO HORIZONTE - O Conselho Universitário da UFMG está reunido em caráter extraordinário, para discutir a ação da Polícia Militar no campus Pampulha, ...
Folha Online - 8 de abril
Um grupo de estudantes da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) que invadiu a reitoria da universidade na segunda-feira (7) decidiu permanecer no ...
Folha Online - 8 de abril
Um grupo de estudantes da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) que invadiu a reitoria da universidade na segunda-feira (7) decidiu permanecer no ...
Minas Vestibular - 8 de abril
Terminou, na noite de ontem (20h53), a assembléia dos estudantes que ocuparam o prédio da reitoria da UFMG, no campus Pampulha, no início da tarde. ...
Folha Online - 8 de abril
Quatro dias após estudantes, professores e policiais militares entrarem em conflito na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) durante a exibição de um ...
Porto Alegre - 7 de abril
Resquícios da ditadura? Nada de novo, para aqueles que se dispõem a construir políticas, numa sociedade em que "fazer política" sempre foi uma prática dificultada para o cidadão comum...
UAI - 7 de abril
“A Polícia Militar de Minas Gerais foi acionada na quinta-feira (03/04) por funcionário da Divisão de Segurança da UFMG, conforme consta em Relatório de ...
Minas Vestibular - 7 de abril
Cerca de 120 estudantes iniciaram hoje (7/04, por volta do meio-dia), manifestação em frente ao prédio da Reitoria, no campus Pampulha. Por volta das 15h, ...
Globo - 7 de abril
Em assembléia realizada na noite desta segunda-feira (7), os estudantes que ocupam desde o início da tarde o saguão do prédio da reitoria da Universidade ...
Folha Online - 7 de abril
Quatro dias após estudantes, professores e policiais militares entrarem em conflito na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) durante a exibição de um ...
Pernambuco.com - 7 de abril
Um grupo de cerca de 150 estudantes ocupou no início da tarde de hoje (7) a reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte...
UAI - 7 de abril
Um grupo com cerca de 200 estudantes invadiu a reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no câmpus Pampulha, na tarde desta segunda-feira...
UAI - 5 de abril
A confusão entre alunos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) ea Polícia Militar já está no YouTube. Um vídeo feito por um dos estudantes mostra ...
A Tarde On Line - 4 de abril
Um estudante foi preso e outros dois ficaram feridos na noite de ontem durante um debate sobre legalização da maconha no Instituto de Geociências (IGC) ...
Central de Mídia Independente - CMI - 3 de abril
Hoje dia 03 de abril de 2008, às 19:30 hrs, cerca de 50 homens da Polícia Militar de Minas Gerais, em várias viaturas e até um helicóptero, cercaram o Instituto de Geociências da UFMG impedindo a entrada e saída de trabalhadores e estudantes do prédio...

terça-feira, 8 de abril de 2008

O Globo: 08/04/2008, Coluna Gente Boa



NOTA PELO RESPEITO A DEMOCRACIA E LIBERDADE NOS DEBATES SOBRE POLÍTICAS E LEIS SOBRE DROGAS

“14Eu sei, e estou certo no Senhor Jesus
que nenhuma coisa é de si mesma imunda
a não ser para aquele que a tem por imunda;
para esse é imunda”
Epístola de Paulo aos Romanos:
Cap. 14; Vers. 14

A Ananda – Associação Interdisciplinar de Estudos sobre Plantas Cannabaceae vem através desta nota-pública prestar solidariedade e apoio às pessoas vitimadas pelos fatos ocorridos na tentativa de exibição do documentário “Grass”, no último dia 03/04, na UFMG. Lamentamos a forma como a direção da unidade vetou a exibição do documentário, mas principalmente a forma como atuaram no ímpeto de levar às últimas conseqüências a missão de impedir o debate em torno do tema do filme: As origens e os processos históricos da manutenção injusta da proibição da maconha.


Repudiamos a forma repressora como os fatos foram conduzidos, mas acreditamos que as atitudes tomadas pelas autoridades policiais que foram ao local não são consenso dentro de todas as corporações policiais de Minas Gerais, muito menos em todo o país e em outros setores da sociedade. Apesar de ser uma jovem democracia, outros eventos que criam espaço para discussões em torno da legalização da maconha ocorrem no Brasil desde a década de 1980. As experiências do Coletivo Marcha da Maconha Brasil no ano passado são um bom exemplo disso: No Rio de Janeiro houve uma grande caminhada com pessoas portando faixas, cartazes e aconteceu até um concurso de fantasias (a Polícia Militar esteve presente, como em outros tipos de manifestações públicas, ajudando a manter a ordem, a desviar o trânsito e garantindo a segurança dos participantes e da comunidade); em Salvador ocorreu o Seminário “Maconha na Roda”: Políticas Públicas em diálogo com a Sociedade Civil, que contou com um público de mais de 300 pessoas em 2 dias de discussões sobre o tema, incluindo uma sessão comentada do filme “Grass” (o Evento contou com o apoio da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, além do GIESP – Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Substâncias Psicoativas e outras instituições, que cedeu a sala e o material para exibição do vídeo, ocorrendo sem qualquer tipo de contratempo). Em outras cidades como Porto Alegre, ocorreram debates e em diversas cidades algumas pessoas se reuniram para lembrar o dia e iniciar articulações para a construção do um núcleo do movimento em suas cidades.

Além disso, é sempre bom lembrar que vivemos na “era da informação”. É muito fácil e amplo o acesso a pesquisas, livros, revistas e outros tipos de informações sobre os verdadeiros perigos da maconha, sobre os reais motivos da proibição e principalmente sobre as experiências legislativas e políticas sobre o tema em outros países. 30 minutos gastos num site de busca e qualquer pessoa empenhada descobre que as opiniões sobre os danos provocados pela Cannabis são bastante divergentes entre si e que não há consenso sobre as informações geralmente utilizadas para justificar a manutenção da proibição. Também é possível descobrir informações a respeito do fato de que tanto no Brasil, como nos EUA e em outros países dados científicos foram manipulados para justificar a proibição na década de 1930, apesar da reação de muitos setores ligados à profissionais de farmácia e medicina. A cada dia que passa fica mais explicito a toda sociedade e também às pessoas que precisam trabalhar na “Guerra às Drogas” que em uma guerra todos saem perdendo, mesmo que as intenções sejam as melhores possíveis. Fica cada vez mais difícil sustentar o discurso monolítico de que a única forma de prevenir os possíveis perigos da maconha seja tornando as pessoas que queiram usá-la criminosas e acreditando que um dia o mercado vai deixar de existir por si mesmo.


Não se trata de afirmar que a maconha não faz mal, isso seria um absurdo, já que qualquer coisa se mal utilizada pode ser prejudicial não só a quem faz uso, mas também a sociedade da qual faz parte. Porém, acreditamos ser muito mais danoso para a sociedade uma política pública baseada no princípio de qualquer pessoa flagrada consumindo maconha em qualquer circunstância, além de precisar de ajuda forçada, também deve ser considerada “inimiga da sociedade normal” e ser mantida como criminosa.


Tornar a maconha uma planta ilegal não diminuiu seu consumo nem acabou com o mercado, apenas empurrou o negócio para a mão de criminosos profissionais, criou espaços de corrupção na sociedade e em suas instituições, tornou praticamente inexistente o diálogo entre as pessoas que usam maconha e os agentes de saúde pública e desvia a função de agentes públicos dos setores do sistema de justiça e policial ao os obrigar a darem atenção a uma questão que deveria majoritariamente ser tratada através do sistema de saúde. Se os objetivos da proibição e da repressão ao uso eram a dar o melhor do aparato estatal na manutenção da ordem e da saúde tanto para o bem da sociedade como dos indivíduos os esforços têm sido contra produtivos.

A proibição foi criada na década de 1930, quando não a ciência não saia quase nada da planta, apenas reconheciam que eram grupos restritos da sociedade que faziam uso (negros, índios, mestiços, pobres, marginalizados, etc.). Isso foi o suficiente para manipularem os dados e proibirem-na a todo custo, mesmo que de 1932 até hoje isso só tenha servido para levar as tensões sociais a níveis extremos. Em 2008, dezenas de pesquisas, inclusive com cientistas brasileiros, trazem dados que mudam completamente o que se falava até então sobre a planta, afirmando que ela não apenas pode ser usada de forma segura, como tem propriedades medicinais, além de diversos utilidades industriais.

Hoje, existe uma quantidade de informações sobre a história, a farmacologia e botânica e outros aspectos da planta Cannabis sativa como nunca existiu em nenhuma época da história humana, e não são apenas grupos minoritários os que consomem a planta e seus derivados. Mas será que ainda é mais possível se esconder do que esse conhecimento revela?

Os dados e os discursos já foram demasiadamente manipulados ao longo da história para forjar uma falsa-realidade sobre a maconha e enganar a opinião pública. São quase 100 anos no qual reproduzimos quase sem reflexão a crença de que a maconha era proibida para proteger a saúde da sociedade, apesar de ser baseada em falsas informações. Todo discurso contrário a isso era considerado herético e digno de por em risco a estrutura social, já que colocava em cheque a legitimidade da origem de uma decisão política que aparentava ser muito respeitável.

No entanto, assim como um dia muitos ao se arrependerem por um mal-julgamento ao descobrirem o engano procuram se desculpar e reparar a confusão, também precisamos admitir nossos erros, sob pena de passarmos toda a eternidade remoendo suas tensões e sofrendo suas conseqüências. Um trauma, seja ele de ordem psicológica ou histórica, só pode ser reparado quando encaramos de frente sua origens e causas e procuramos realizar as coisas que precisam ser feitas para equacioná-lo.

Agora não é uma questão de desconhecer a verdade sobre o tema. A decisão agora é se vamos jogar a verdade para debaixo do tapete novamente, se vamos usar a violência para calá-la ou se vamos dar ouvidos a ela e construir um caminho de respeito e liberdade digno de um Estado Democrático de Direito. Podemos afirmar que no contexto atual não só é preciso reforçar que já há diversos espaços para o diálogo franco sobre o tema, como também manter as pressões para que as mudanças necessárias continuem acontecendo.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Estudantes fazem manifestação na UFMG

Estudantes fazem uma manifestação no campus Pampulha, em Belo Horizonte, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG buscar) desde o início da tarde desta segunda-feira (7). Os manifestantes pedem explicações da instituição sobre a entrada da Polícia Militar no campus na última quinta-feira (3) e estão reunidos com o reitor Ronaldo Pena e a vice-reitora Heloísa Starling.


De acordo com os estudantes, a PM entrou no campus na última quinta-feira durante a exibição do documentário “Maconha - Grass” no Instituto de Geociências (IGC) da UFMG. “O filme havia sido proibido pela diretora do instituto, mas os alunos organizaram a sessão e passaram o filme. Aí a polícia chegou e fechou o prédio. Um estudante que estava no prédio e nem assistiu ao filme foi impedido de sair e depois de agredido, foi algemado e levado para uma viatura. Outros estudantes também sofreram agressão”, conta Marco Túlio de Melo Vieira, 19, membro do Diretório Central dos Estudantes (DCE) e aluno do curso de comunicação social da UFMG.


Em nota divulgada na sexta-feira (4), a reitora em exercício, Heloísa Starling, lamentou a ocorrência dos fatos e afirmou repudiar qualquer ação de violência praticada e que não autorizou nem a presença nem a ação da Polícia Militar. A nota esclarece, ainda, que serão tomadas providências para apuração dos fatos e das responsabilidades.


A PM, no entanto, afirma, em nota divulgada à imprensa, que foi acionada por telefone por um funcionário da Divisão de Segurança da UFMG sob alegação de que um grupo de seguranças estava sob ameaça.


O documento da PM diz ainda que, segundo policiais que participaram da operação, a chegada de policiais gerou protestos por parte dos estudantes que participavam do encontro denominado “A marcha da maconha”. Ainda de acordo com relato dos policiais, objetos foram arremessados contra os militares, que solicitaram reforço. Um estudante foi preso por desacato à autoridade policial. Uma estudante foi atingida por pedra atirada por um grupo de alunos e foi encaminhada ao Hospital João XXIII.


A PM informa que abriu apuração interna para verificar as circunstâncias em que ocorreu o incidente e “tomará as providências quanto a possíveis irregularidades”.


Protesto contra a repressão


“A questão é: a polícia entrou e se não foi acionada, foi sancionada. Nosso protesto não é sobre drogas e sim contra a ação da polícia e repressão”, diz Vieira. Segundo o estudante, a manifestação pede uma audiência pública com o reitorado para eles se retratarem e explicarem a ação da polícia e a instauração de uma comissão paritária para apurar os acontecimentos e os responsáveis.


Os estudantes iniciaram a manifestação em frente à reitoria no início da tarde. Por volta das 15h, eles invadiram o saguão do prédio. “A reitoria encontrava-se fechada e com seguranças na porta. Não pudemos entrar, então ocupamos, de forma pacífica, e realizamos uma assembléia”, explica Vieira.


De acordo com os estudantes, depois da reunião com o reitor e a vice-reitora, haverá uma outra assembléia para avaliar as respostas da reitoria.

Leia mais: G1; Marcha da Maconha

UFMG: estudantes ocupam reitoria

Um grupo com cerca de 200 estudantes ocupou a reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no câmpus Pampulha, na tarde desta segunda-feira. O motivo da invasão ocupação é a cobrança de uma posição da universidade quanto à confusão entre alunos e Polícia Militar, ocorrida na última quinta-feira.

Na ocasião, vários alunos foram impedidos de assistir o documentário “Grass Maconha”, que trata da liberação das drogas, em uma aula no Instituto de Geociências (ICG). A polícia foi chamada e cerco o prédio. Durante abordagem um estudante foi detido e a aluna do sexto período de Medicina Débora Gomes de Melo dos Santos Medeiros, de 24 anos, ficou ferida com um corte na cabeça, sendo socorrida no Hospital de Pronto Socorro João XXIII.

Os estudantes que invadiram a reitoria querem uma audiência com o reitor Ronaldo Tadeu Pena e com a vice-reitora Heloísa Starling. De acordo com a assessoria de Imprensa, a universidade propôs a formação de uma comissão dos estudantes para conversar com o reitor e com a diretoria do ICG, mas a idéia foi negada pelo grupo.

A reitoria formulou outra proposta: aceita conversar com o estudantes, desde que eles desocupem o prédio. Os alunos acataram a nova sugestão e se reúnem às 17h com a direção da universidade no auditório da Reitoria.

Na última sexta-feira, a UFMG criou uma comissão para apurar as causas do incidente. A comissão é formada por dois professores e um aluno e tem 30 dias para finalizar um relatório sobre o caso.

O caso da invasão foi parar até no You Tube. Um vídeo feito por um dos estudantes mostra parte da discussão entre o grupo e policiais militares, além da prisão de um dos jovens.
O seu dinheiro mal utilizado
Enquanto estão roubando, matando, estuprando, sequestrando, cometendo crimes de corrupção…Seu dinheiro é usado para evitar que um filme seja mostrado em uma universidade

Detalhe, um video que foi vendido na Banca de Jornal pela Editora Abril, em uma edição da revista Superinteressante. O vídeo que seria exibido foi comercializado pela Editora Abril livremente nas bancas de todo o país. Portanto nada de apologia.
DVD Superinteressante: Anúncio do DVD vendido nas bancasEncarte do DVD

Polícia de MG agride estudantes que queriam conversar sobre drogas

Resquícios da ditadura? Nada de novo, para aqueles que se dispõem a construir políticas, numa sociedade em que "fazer política" sempre foi uma prática dificultada para o cidadão comum.

Se a universidade é um local no qual o conhecimento é produzido, podemos dizer das universidades federais, mais do que em todas as outras, que o conhecimento ali produzido deve estar voltado às questões mais urgentes da sociedade, pois somos nós, contribuintes (cidadãos comuns) que sustentamos seu funcionamento.

Estas pessoas que impediram o debate sobre políticas de drogas na Universidade Federal de Minas Gerais, bem como todas aquelas que as apóiam, estão no fundo expressando que, no seu entender, as leis de uma sociedade não podem ser construídas pelas pessoas que vivem nesta sociedade. É o que pudemos entender, não é? Este ato de repressão quer reafirmar a idéia de que, ao cidadão comum, só cabe a tarefa de obedecer leis, jamais ajudando a construí-las. O que o reitor Ronaldo Tadêu Pena e a vice reitora Heloísa Maria Murgel Starling quiseram dizer aos seus alunos e alunas, é que nesta universidade não está permitindo a existência de sujeitos do conhecimento - somente de meros objetos.

Discutir sobre políticas de drogas é necessário, é urgente, independentemente das opiniões que temos sobre o assunto. Afinal, se dizer contrário (ou favorável) àquilo que chamam por aí de "legalização", sem se permitir argumentar a respeito ou debater sobre o tema, reflete a imaturidade política de um governo (ou de uma reitoria) que entendem a mera pronúncia da palavra "maconha" como um crime concreto. Este ato lamentável demonstra a própria necessidade que temos de falar sobre drogas, este tema sobre o qual todos possuem opinião formada, mas poucos têm a coragem de questionar, refletir, construir alternativas menos produtoras de violência e desigualdade. Se isto ocorreu em uma universidade, também nos demonstra o grau de sujeição destas instituições de ensino superior às estruturas de uma ditadura travestida de democracia. Quem está ganhando com o comércio ilegal de drogas, tal como fossem produtos? Quem está ganhando com tanta desinformação, e com tantos silêncios?

No ano de 2006, em Porto Alegre, conseguimos, com dificuldade, fazer um debate sobre drogas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul contando com a exibição do mesmo filme proposto na atividade na UFMG. A saber, "Grass" não é um filme de propaganda ao uso da droga: é um filme de caráter documental. Em um ritmo que opta de forma brilhante em dialogar com ironia e com sarcasmo diante da própria esquizofrenia dos discursos que sustentam a proibição à maconha, traz uma abordagem histórica da construção de políticas de proibição à planta, nos EUA. Como se não bastasse o argumento, este filme foi distribuído pela editora Abril amplamente em bancas de revista, através da revista Superinteressante.

O que se pode ver neste vídeo é um estudante universitário que, diante da presença da PMMG, foi detido, na falta de melhor justificativa, por "desacato à autoridade", quando justificou sua condição de estudante, de cidadão, ao querer conversar sobre drogas num debate que envolvia o filme "Grass".

O rizoma Princípio Ativo estende sua solidariedade aos companheiros de luta de Minas Gerais. Manifestamos nossa indignação a todas as pessoas que incentivaram esta ação, ou que consideram desejável sua estupidez, pois estão, em nome de suas próprias limitações e de suas vontades, impedindo que nossa sociedade saiba como lidar com o fenômeno das drogas de maneira consciente, segura e não-produtora de violência. Nós, pessoas contrárias à guerra às drogas, que por algum motivo queremos procurar as nuances que estão além da mera repressão ou da mera apologia, estamos tentando promover discussões sobre tabus entre pessoas que naturalizam o silêncio, enfrentamos a criminalização do diálogo em uma sociedade que já não se comunica.

Se você não é favorável à repressão do diálogo sobre drogas em nossa sociedade, repasse esta notícia a todos os contatos de sua lista.

UFMG: Violência e Censura impede debate

Feridos 2 alunos e preso outro após confronto na UFMG
A Tarde On-line

Um estudante foi preso e outros dois ficaram feridos na noite de ontem durante um debate sobre legalização da maconha no Instituto de Geociências (IGC), no campus da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Conforme relatos, um tumulto se formou quando seguranças da universidade intervieram para impedir a exibição do documentário "Grass Maconha". A reitoria alegou que a exibição não havia sido autorizada pela diretoria do IGC.
Cerca de 50 alunos do curso participavam do "filme-debate". Os estudantes não teriam permitido a retirada do filme e teve início a confusão. A Polícia Militar foi chamada e os policiais impediram que os universitários deixassem a arena do IGC. Um aluno do 1º período - cujo nome não foi divulgado - tentou deixar o local e foi algemado, sendo preso sob a alegação de desacato à autoridade.
Estudantes tentaram impedir que os policiais deixassem o local com o detido. Alguns sentaram na frente da viatura e foi iniciado o confronto. Um aluno e uma universitária sofreram ferimentos leves e foram atendidos no Hospital de Pronto-Socorro João XXIII. O estudante preso foi levado para o Juizado Especial Criminal e Cível de Trânsito. Ele foi liberado no final da noite.
Num comunicado, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) afirmou que "uma sessão de cinema foi impedida a cacetadas pela" PM, que foi "convocada e autorizada a agir pela Reitoria". O DCE solicitou retratação pública por parte da Reitoria e a abertura de um inquérito administrativo para punição dos responsáveis pela entrada da PM no campus.
Repúdio
Em nota assinada pela a vice-reitora e reitora em exercício da UFMG, Heloísa Starling, a Reitoria da universidade lamentou os fatos, "inteiramente estranhos à civilidade que caracteriza o ambiente acadêmico". A nota afirma que a instituição "repudia qualquer ação de violência praticada; informa que não autorizou nem a presença nem a ação da Polícia Militar e esclarece que serão tomadas providências para apuração dos fatos e das responsabilidades".
No comunicado, a reitora em exercício afirma que o reforço da segurança foi solicitado para garantir o cumprimento da deliberação da diretoria do IGC. Afirmou que depois ficou sabendo que a decisão não havia sido respeitada e ocorria um tumulto na unidade acadêmica, com a intervenção da PM. Disse ainda que entrou em contato com o Comando da PM para esclarecer o ocorrido e solicitou que o procurador-geral da universidade acompanhasse o registro policial do estudante detido. Um assessor da Reitoria acompanhou o atendimento dos estudantes feridos.

sábado, 5 de abril de 2008

Do UAI
Censura e Repressão violenta a indivíduos e movimentos sociais pela legalização da maconha em Minas Gerais
A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) criou uma comissão de sindicância para apurar as causas de tumulto, na noite de quarta-feira, no câmpus da Pampulha, em Belo Horizonte, que culminou com a presença da Polícia Militar no prédio do Instituto de Geociências (IGC) e confronto com estudantes, que deixou alguns jovens feridos. O motivo da confusão foi a tentativa de exibição no local, às 19h30, do documentário Grass Maconha, que trata da liberação da droga e recebeu o veto da diretoria do IGC. Em nota, a reitora em exercício, Heloísa Starling, informou que a comissão, de dois professores e um estudante, tem prazo de 30 dias para fazer um relatório sobre a situação. A ação, segundo alunos, teve uso de helicóptero, spray de pimenta e pistolas de choque não letais.
Na tarde de sexta-feira, os estudantes fizeram assembléia no IGC, para analisar a situação e repudiar a presença da PM no câmpus. “Foi um ato de truculência. Estava numa reunião no diretório e fui ver o que estava ocorrendo. Acabei com as costas machucadas”, disse o coordenador do Diretório Central dos Estudantes (DCE), Bruno Pedersoli. Os estudantes marcaram para segunda-feira, ao meio-dia, um ato de repúdio. “Vamos fazer um dia de luto na universidade e pedir que todos venham com roupa preta. A nossa grande pergunta é: quem autorizou a entrada da PM no câmpus?”, disse.
O prédio está coberto de cartazes com as frases “abaixo a repressão”, e “método pedagógico UFMG espancamento”, “ação agressiva” e outros. Há também afixados, em vários cantos, panfletos sobre a “marcha da maconha”. Os alguns negam qualquer conexão entre a manifestação pela droga e a tentativa de exibição do filme, “que pode ser comprado em banca de revistas”.
Com um corte na cabeça, que resultou em quatro pontos no Hospital de Pronto-Socorro João XXIII, dores nas mãos, nas costas e nas pernas, a estudante do sexto período de medicina, Débora Gomes de Melo dos Santos Medeiros, de 24 anos, esteve na tarde de sexta-feira no Hospital das Clínicas para fazer exames de raios X. Durante a confusão, segundo ela, recebeu golpes de cacetetes de um policial. “Sou do DCE e também estava em reunião. Quando soubemos do que estava ocorrendo, fomos para o local e vimos que estavam algemando e levando preso um estudante de geografia. Havia cerca de 50 policiais, numa ação sem razão. Cercamos a viatura e perguntamos o que estava ocorrendo, mas eles já estavam batendo nos estudantes”, disse Débora, que fez exame de corpo delito.
Como ainda era horário de aulas, muitos professores presenciaram o tumulto. “Foi um incidente lamentável. Fui empurrado e xingado”, disse o professor de geologia Guilherme Knauer, que lamentou a presença da PM num espaço democrático como a universidade “Os dois são líquidos imiscíveis, não se misturam”, comparou. Ele se lembra do que ocorreu pouco antes da confusão. “Vi quando quatro policiais entraram no prédio, trancaram a porta e disseram que ninguém poderia sair. Um aluno respondeu que precisava ir embora. Nesse momento, um dos militares, que parecia completamente transtornado, entendeu a resposta como desacato à autoridade e o levou preso”, contou o professor. O Sindicato dos Professores das Universidades Federais de Belo Horizonte e Montes Claros (Apubh) divulgou nota repudiando o episódio.
De acordo com a UFMG, a universidade mantém, desde 2003, um convênio com a PM, que tem, no câmpus, o Regimento de Cavalaria Alferes Tiradentes, para patrulhamento da área. A PM divulgou nota esclarecendo que foi chamada pela segurança da UFMG “e, nesse caso, não poderia se omitir”. Além da regimento, a ocorrência foi atendida pelo Batalhão de Polícia de Eventos (BPE). O tenente-coronel Ricardo Matos Calixto explicou, na nota, que o encontro “marcha pela maconha, organizada pelos alunos”, não foi autorizada pela diretora do instituto, conforme ofício enviado à procuradoria jurídica, “pois fazia apologia à liberação e ao uso da maconha”. Diz ainda que “o documento confirma a solicitação de reforço da segurança nas dependências da escola”. O militar explicou que objetos foram lançados nos policiais e que “uma aluna ficou ferida, atingida por pedrada arremessada pelos estudantes”.