terça-feira, 20 de março de 2007

Governos da Inglaterra e Austrália adotam tolerância ao cultivo doméstico como estratégia de Redução de Danos


Segundo os dados dos relatórios publicados, em 2003, pela Fundação Joseph Rowntree, uma instituição de pesquisa na Inglaterra, e em 2005 e 2006, pelo National Drug Law Enforcement Research Fund (NDLERF), órgão do Dep. de Saúde do governo australiano, é possível afirmar que as políticas públicas que têm tolerado o cultivo de pequenas quantidades de cannabis, além do óbvio aumento da qualidade do produto consumido, têm conseguido principalmente diminuir os índices relação entre o mercado consumidor de maconha e as práticas de violência e outros tipos de crimes.

Não se trata de experiências de tolerância e permissividade sem regulamentação detalhada, como a Holanda e a Espanha, que toleram o consumo apenas para afastar os indivíduos de drogas consideradas ‘duras’. No caso da Inglaterra, essas pesquisas têm concluído que a transformação no mercado fornecedor da maconha, que atualmente têm se especializado em cultivos de pequena escala, tem tornado o tráfico no país menos violento.

No caso australiano é um pouco diferente. O Governo do país, desde 2000, passou a adotar uma série de medidas visando diminuir os danos relacionados com a legislação e o mercado relacionados à cannabis. Ou seja, o Estado australiano, legislativo e executivo, se empreendeu no esforço de diminuir as conseqüências negativas que eram oriundas da proibição, que influenciava a qualidade do fumo e a forma como a produção e distribuição da substância ocorria. Assim, a legislação foi alterada de forma consciente para que abrigasse mecanismos de tolerância ao porte e o plantio de pequenas quantidades para consumo próprio, e os policiais e outros profissionais que se relacionam com pessoas que fumam maconha foram treinados para se adequarem à nova realidade e a intenção do projeto. Os resultados foram expostos pelos relatórios de 2005 e 2006, e mostram que, além da diminuição da violência na distribuição da substância, que passou para a mão de produtores de média-escala, muitas pessoas passaram a cultivar para consumo próprio o que torna o mercado produtor menos atrativo para grandes produtores.

O curioso é que a legislação brasileira atualmente em vigor prevê que a pessoa que porta ou cultiva uma pequena quantidade não pode ser encarcerada, sendo passível apenas de punição com uma medida sócio-educativa, que também não pode gerar um registro em ficha criminal. Dessa forma, na prática, o que a Lei brasileira fez foi se aproximar da lei australiana, mas sem que isso tenha sido fruto de algum tipo de reflexão mais voltada para um planejamento ou intenção mais articulada com os interesses das pessoas que consomem drogas ou das autoridades de saúde. Nesse caso, a comparação entre Brasil e Austrália é bastante interessante, no que se refere a dois países com legislações semelhantes, sendo que um planejou exatamente o que gostaria de atingir com ela e o outro não. Tanto que, as mudanças na lei brasileira foram muito difíceis de serem implementadas no texto, inclusive sendo alvo de muita disputa política, de interesses que não queriam ver essas reformas sendo instauradas, mas agora, mesmo depois de aprovadas as mudanças, elas não estão sendo planejadas corretamente no âmbito de sua aplicação, o que pode gerar complicações na relação entre meros consumidores e policiais não preparados para a nova realidade legislativa.
Referências:

terça-feira, 6 de março de 2007

Filme discute os tabus da maconha

O longa metragem Quart4 B retrata, com bom humor e um tom grave de crítica à hipocrisia que impera com relação ao consumo da maconha, conta a história de país que forçados a dialogar entre sí para resolver uma questão muito delicada junto aos coordenadores pedagógicos da escola na qual seus filhos estudam: Quem é responsável pelo tijolo de maconha encontrado em uma das cadeiras da Turma B da quatra série? A partir daí, o filme se desenrola em diálogos muito interessantes que discutem os pré-conceitos e falsas noções relacionados ao consumo da planta e seus derivados. Quart4 B foi exibido pela primeira vez em São Paulo na Mostra Internacional de Cinema, onde conseguiu o prêmio de melhor filme pela escolha do público. Vale a pena assitir.
Saiba mais:Quart4 B

segunda-feira, 5 de março de 2007

Legalização: O debate retomado


Desde o prícipio da perseguição às pessoas que consomem drogas, ainda no século XIX, sempre existiram indivíduos e grupos que defendiam a legalização como uma alternativa mais racional à proibição. Não se tratavam de pessoas que consumiam interessadas em assegurar o acesso à substância, mas pessoas que reconheciam nas políticas proibicionistas uma violência às liberdades individuais e ao Estado de Direito. No entanto, desde a década de 1980, diversos estudos vêm apontando razões menos éticas para efetuar tais modificações. Diversos pesquisadores passaram a apontar para os custos econômicos e sociais altíssimos em se manter as políticas de repressão e perseguição ao consumo.

No último dia 13 de fevereiro, o Governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), declarou que a legalização das drogas poderia ser discutida como uma alternativa muito mais interessante e menos hipocrita do que a proibição. No dia 2 de março, Wadih Damouso, Presidente da OAB-RJ, resolveu pegar carona na declaração do governador e também se colocou favorável às discussões sobre legalização.

Ora, é ótimo que todos agora estejam querendo levantar tal discussão. Ainda que os consumidores e estudiosos do tema sempre tenham sido ignorados por todoas essas décadas, sempre é hora de se descartar velhas posturas e procurar humildemente aceitar o erro cometido. Mas, daí à Folha de São Paulo afirmar que Sérgio Cabral é um dos principais defensores da causa no país vai uma certa distância.

E todas as passeatas que terminaram em repressão policial? E todos os anos de luta do Dep. Fernando Gabeira e seus aliados? E todos os esforços de coletivos de redução de danos como o Growroom e outros? E os debates e considerações de pesquisadores e estudiosos do tema?

Então, quer dizer que a idéia só é interessante quando é proposta por um governador?